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Carta ao Quintana

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São Paulo, 12 de maio de 2020. Quintana, Escrevo-te numa manhã estranha, desde a capital paulista. Por sorte, não viveste os tempos que estamos experimentando. Estarias isolado, sem poder circular na Rua da Praia, ou fumar teus cigarros na praça. A despeito do que poderias imaginar, estou em perfeito estado de saúde, e penso que onde quer que estejas, também, já que estas preocupações prosaicas já não são tuas. Li o que escreveste (ou disseste), sobre o fato de não teres jamais casado: “ prefiro ser a esperança de muitas, do que a desilusão de uma só !”. Como sempre, espetacular, lindo, sábio, prudente. E covarde! Covarde, Mário! Arrogante, Mário! Para um poeta que descreveu tão bem amores e inquietudes da alma, como teus contemporâneos, fostes machista, Mário!  Sim, eu sei! É de uma ousadia absurda contestar-te, o saudoso e imortal Mário Quintana! Mas, tenho meus argumentos. O primeiro é quanto à covardia. Esgueirar-se das vicissitudes do amor por medo de de...

Nos vemos a noite!

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À noite, quando o mundo silencia, e o céu é mais escuro, a fina névoa do final de outono se ergue sobre o asfalto e, por entre o concreto gelado, o ar frio que precede o inverno parece ser ainda mais sombrio. Olho pela vidraça e as luzes fracas da metrópole se distorcem na condensação da janela. Parece quem nem mesmo as almas e os fantasmas da noite circulam pela cidade. Meus pensamentos vagam ora aqui, outra ali, percorrendo a linha fina do tempo, sem que eu consiga definir o que é lembrança e o que é desejo. Sinto o hálito alcoolizado de um licor que eu não tomei. Sinto o calor da pele que não está aqui. Minhas mãos querem te tocar e encontram apenas o vazio sobre os lençóis. O tempo que se arrasta lentamente nessa noite, e escorrerá cruelmente entre os dedos quando estivermos juntos. A única constante nesta equação exponencial de sensações, portanto, é, mais uma vez, a saudade. Talvez, saudade de coisas que não foram experimentadas, talvez até do que não foi meu....