Monstruosidade
É
difícil escrever a respeito de momentos, eventos ou fatos em que há grande
comoção social.
Vivemos no último final
de semana mais uma das grandes tragédias da humanidade, em seu desatino. Uma
série de atentados terroristas em Paris, com mais de uma centena de mortos,
assombrou os franceses, e o mundo.
Antes,
no Brasil, uma barragem de detritos de minério foi rompida, inundando cidades
com uma lama tóxica que está colocando em risco o ambiente da região por
diversas maneiras. Ainda, no mundo há refugiados. Há desastres naturais. E tragédias
humanas.
Ainda
por aqui, estamos à beira de um colapso administrativo-político, que leva de
arrasto a economia e a própria viabilidade da nação. Por último, na outrora
Província de São Pedro, vivemos à míngua, sem recursos para cumprir as
obrigações básicas do Estado, quem dirá para investimentos de infraestrutura ou
melhorias da comunidade como um todo.
Sobre
tudo isto, não há o que já não se tenha dito. A imprensa, como um todo, segue
navegando no mar de lama ensanguentado, que percorre tanto os gabinetes de
Brasília, quanto o leito do Rio Doce, até a Europa distante. Opiniões,
análises, contextualizações, parece que tudo que poderia ser dito, foi dito!
Mas,
e aí? O que nos resta disto tudo?
Buenas.
Minha percepção poderá parecer insensível, quiçá desumana, certamente pouco
cristã, mas, permitam-me concluir. Nada do que aconteceu em Paris, em Mariana,
em Brasília, ou aqui, no Palácio Piratini irá impactar a vida, o dia-a-dia de
cada um de nós. Nada. Especialmente se continuarmos assistindo as notícias, aos
eventos da humanidade, ao que nos cerca como assistimos a uma novela da Globo,
ou algum seriado do NetFlix.
Tenho
ouvido aqui ou ali pequenas rodas comentando sobre o “Estado Islâmico”, ou
sobre a “Lama de Minas”, ou ainda sobre o “atraso nos salários dos servidores
gaúchos”. Comentários tão contundentes, inflamados e fundamentados, quantos
aqueles que versam sobre as projeções do Gre-Nal. Fatos como estes nos chocam,
nos agridem, mas, não interferem em nosso cotidiano se formos – e nos
mantivermos – como meros expectadores.
É
possível ouvir dissertações sobre como o governo francês deve lidar com a
retaliação aos terroristas, da mesma pessoa que não consegue estruturar seu
cronograma de trabalho. Ou ainda, o apregoar da pena capital à corrupção, de
quem acaba de furar a fila para cobrir um cheque sem-fundos. Ainda, a ridícula
crítica ao crime ambiental, de quem joga papel na rua através da janela do
carro.
Talvez
minha percepção seja exagerada. Talvez.
Ainda
assim, se esses eventos pudessem servir de alguma coisa, além de vender
jornais, que fosse o de nos inspirar a sermos transformadores da própria vida.
Que estes eventos nos trouxessem a reflexão de que podemos ser e fazer mais.
Divagações inúteis que não mudam nada para ninguém poderiam converter-se em
reais ações de transformação.
Menos
discurso, mais ação. Menos acusação, mais auto-avaliação. Auto-percepção.
Façamos
a nossa parte, cuidemos das nossas casas, dos nossos jardins, dos nossos
confrades. Cuidemos da família, do colega, da esposa, do filho. Busquemos a justiça nas nossas decisões. Pagar
o que se deve. Não prometer o que não se pode cumprir. Limpar o que sujamos.
Desculparmo-nos pelas ofensas que praticamos. Aceitar o perdão de quem nos
estende seu arrependimento. Orar ao próprio Deus. Trabalhar. Produzir. Ser hoje
melhor que ontem. Não permitir a si mesmos a sonegação, a compra do aparelho
pirata, exigir nota fiscal. Não cessar antes de chegar ao fim da tarefa.
Desfrutar do suor do trabalho, e do repouso reparador. Não julgar ao outro.
Cuidar da própria vida. Olhar para os lados antes de atravessar. Cumprir as
leis. Não beber e dirigir. Ser uma pessoa melhor. E tantas outras recomendações
que damos, e não cumprimos.
Antes
de recomendar o uso do agasalho, agasalhe-se!
Quem
sabe se cada um de nós, e todos nós, mantivermos absoluta vigilância sobre estes
cuidados básicos, com os quais basicamente concordamos, possamos evitar que nos
tornemos mais monstruosos a cada dia.
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