43 dias - Curiosidade
Meu filho,
Antes de ser teu pai, eu sou padrasto dos teus irmãos.
Ou seja: quando a mamãe e eu ficamos juntos pela primeira vez, ela já tinha teus manos. Naquela época, o Brian estava com uns 9 anos, e o Lucca tinha apenas 2 aninhos.
Duas crianças em momentos completamente diferentes — e que ocuparam grande parte da minha vida e do meu amor. Nesse tempo, eu vinha pra casa apenas nos finais de semana. E nem sempre os manos estavam, porque também passam dias com o papai deles.
Cada um se relaciona comigo de um jeito. São pessoas distintas, com personalidades diferentes, histórias familiares próprias, em idades e fases absolutamente diferentes.
O “maior”, como gosto de chamar o Brian no meu velho sotaque gaúcho, sempre teve um jeito mais “adulto”. Desde pequeno parecia compreender com clareza os papéis de cada pessoa na vida dele: o pai, a mãe, o avô… e o marido da mãe dele. Sempre respeitou isso. E, de algum modo, sempre protegeu sentimentos e fragilidades — mesmo aquelas que ninguém dizia em voz alta.
Com ele, nossa relação sempre foi construída no argumento. O Brian é especialmente inteligente, forte de personalidade, questionador, argumentador. Me lembra muito a mim mesmo nessa idade — e olha que, quando tu nasceres, ele já terá 16 anos, o auge da adolescência crítica, vigorosa, inquieta, em um mundo digital que eu não domino tanto quanto gostaria.
É claro que eu dou meus pitacos. Com o Brian, às vezes, temos longas horas de “resenha”, e das mais acaloradas, sobre absolutamente tudo: da matemática à filosofia, da história à política, do profano ao divino. Às vezes, os dois bravos. Às vezes, mansos. Mas sempre verdadeiros.
Tenho esses momentos com ele porque teu irmão mais velho precisa saber o que o teu pai pensa, sente e crê. Porque ele também será um ponto de apoio pra ti no futuro. Ele também terá impresso nele um pedaço de mim — não pela genética, mas pela convivência intensa.
Ele ainda não sabe, e eu não vou lhe atribuir responsabilidades que não precisa carregar, mas naturalmente te protegerá, te orientará e te cuidará. E esse sentimento, que nasce entre irmãos, às vezes chega bem perto da fronteira da paternidade.
Eu sei disso porque sinto assim pelos teus tios — meus manos mais novos.
Sou antecipadamente grato ao Brian por me representar em alguns momentos do futuro.
Já o Lucca… bom, o Lucca é a criança mais afetuosa, carinhosa e amorosa que eu já conheci. Desde sempre veio pra nossa cama nos dias de sono agitado. Desde sempre gostou de colinho, de cavalinho, de um carinhosinho. Mas pense num guri intenso! Brabo quando precisa. Forte de espírito. Um coração enorme.
Teu mano tem valores morais muito, muito bem definidos para alguém tão pequeno. Tem uma capacidade de relacionamento e liderança que salta aos olhos de qualquer um.
Pois o teu irmão faz.
Ele também é genioso e teimoso — como era o véio Chico, teu biso. Não por acaso, os dois nasceram no mesmo dia, separados por mais de 80 anos.
E tu, meu filho… como serás?
Terás a serenidade da mamãe ou a cólera eventual do papai? Serás mais introspectivo ou expansivo? Falarás pelos cotovelos, como o vovô e eu, ou serás pontual, preciso, cirúrgico?
Não sei. Mas estamos aqui, enquanto tu não vens, te esperando — com uma curiosidade amorosa e uma expectativa alegre que crescem a cada dia.
Te amo.

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