33 dias - Bicicleta


 Meu filho,

O mundo era bem diferente nos anos 80, quando o papai era criança.

Não tínhamos computadores, nem celulares, nem controle remoto para a TV. Aliás, havia apenas quatro canais de televisão. Íamos para a escola e só reencontrávamos os coleguinhas no dia seguinte. Eventualmente, falávamos pelo telefone compartilhado, preso a um fio na parede, sempre com o risco de ter a conversa “interceptada”, não por um hacker habilidoso, mas pela bisa curiosa.

Não havia videogames. Pelo menos, não na nossa casa.
Não havia Instagram. Para ninguém.

Os dois brinquedos mais populares eram a bola e a bicicleta.

O papai, diferentemente dos titios, não tinha nenhuma intimidade com a bola, por mais que o vovô tentasse. Eu era muito alto, desengonçado, vivia me atrapalhando.

Restou a “bici”, como chamávamos as bicicletas em Porto Alegre.

Volta e meia eu ia com o vovô para o trabalho. Naquela época, o extinto Ginásio da Brigada Militar, onde ele trabalhava, era um grande playground para mim. Um milhão de brincadeiras e fantasias, quase sempre solitárias.

Mas não é exatamente sobre isso que eu queria falar.

Um dia, depois do trabalho, o vovô foi comigo a um grande supermercado, eram poucos os grandes supermercados naquela época, e me deu uma bicicleta nova.

Ela tinha rodas especiais, era toda na cor vinho com branco, com punhos anatômicos. Linda. Uma Caloi Cross Extra Nylon. Puxa, foi demais.

Eu não estava de aniversário, que eu me lembre. Não era Natal. E eu ganhei uma bicicleta nova!

Sinto falta de ter na memória o rosto de satisfação do meu pai ao me dar aquele presente. Mas eu não tirava os olhos da bicicleta.

Eu tinha um amiguinho da escola que tinha um carrinho de controle remoto, um Pégasus. O controle era sofisticado para a época: duas alavancas que comandavam o brinquedo para frente e para trás, para a direita e para a esquerda. Uau!

Pedi ao Papai Noel um “carrinho de controle remoto”. E ganhei. Mas não era um Pégasus. Era um não-sei-qual-era-o-nome, cujo controle tinha um único botão vermelho. Ao apertar o botão, o carrinho dava marcha à ré fazendo uma curva; ao soltar, seguia em frente novamente. Qualquer manobra era um desafio. Ele não parava nunca. Lembro bem da frustração infantil.

Do mesmo jeito, sinto falta de ter guardado na memória o rosto dos meus pais, que provavelmente se perguntavam: “Ué? Mas ele queria um carrinho de controle remoto!”

Os adultos se esforçam muito, e nem sempre entendem as crianças.

O Pequeno Príncipe, que pediu apenas um desenho de carneiro, demorou a ser atendido porque os adultos não entendem as crianças — como já revelava Exupéry¹ de maneira brilhante.

Provavelmente, meu filho, eu também não vou te entender.

Hoje, quando penso nesses episódios da infância, e vou lembrando de outros, percebo que eu tinha tudo o que uma criança poderia querer. E muito mais. Até videogame, que não tínhamos, um dia tivemos.

Mas não é sobre brinquedos. É sobre atenção, cuidado, carinho. Amor.

Cada brinquedo, cada cesta de Páscoa, cada bicicleta carrega junto uma tentativa dos pais de mostrar aos filhos o quanto são amados, mesmo com acertos e erros.

Eu passei quase meio século da minha vida apenas sendo filho, enxergando como filho, sentindo como filho. E não há como compreender tudo plenamente sem ser pai, sem enxergar como pai, sem sentir como pai.

Deus tem sido muito generoso conosco, meu filho, ao nos trazer para a vida um do outro. Nem sempre tu vais entender as escolhas que a mamãe e eu faremos, mas um dia saberás que tudo o que queríamos era te ver feliz.

Te amo.


¹Antoine de Saint-Exupéry (1900–1944) — Escritor, aviador e poeta francês, autor de O Pequeno Príncipe (1943). Na obra, Exupéry explora com delicadeza a distância entre o olhar das crianças e o dos adultos, mostrando como, ao crescer, muitas vezes perdemos a capacidade de compreender o essencial, aquilo que não se explica apenas pela lógica, mas pelo afeto, pela imaginação e pelo coração.

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