30 dias - Mesa das Crianças

Meu filho,

Ouça isso:

— Aqui é onde vai ser o super posto de gasolina.
— Certo, mas eu sou o dono do posto.
— Tá bom. Eu fico com o mega hotel, ali depois desse morro.
— Vamos subir um pouco mais essa rua? Pra deixar ela bem alta.
— Tá bom. Olha, vou colocar isso aqui embaixo.
— Legal. E se a gente emendar mais essas duas pistas aqui, vai ficar radicalmente alto.
— Vou pegar meu Mustang GL preto. Espera que vou colocar nele as rodas do Porsche, que são muito mais largas.
— Boa.
— Mas e se a gente instalar asas no tanque de guerra? Aquelas asas de um avião bem grande.
— Hum… acho que ele é muito pesado. Melhor hélices. Vou tirar do helicóptero e dar um jeito de colocar no teto do tanque.
— Boa. Aí eu vou pegar o motor elétrico daquele carro vermelho, tiro o teto do tanque e coloco as hélices do drone.
— Não podemos esquecer de colocar um paraquedas também.
— Vamos fazer um lugar pra ele pousar em cima do posto de gasolina.
— E daqui ele pode disparar contra o hotel.
— Mas o hotel é móvel, ele tem pernas e um ataque mortífero.
— Sim, eu sei. Por isso a rampa tá bem alta e tem um looping no final.
— Temos que fazer um projeto legal pra isso…

E por aí vai o Lucca, conversando com o próprio Lucca, numa conversa que não é dita em voz alta, mas acontece inteira dentro da imaginação. Sentado no chão da sacada, cercado de Hot Wheels, Lego e outros brinquedos espalhados daqui e dali.

O mundo das crianças é muito mais divertido. Tudo pode acontecer por lá. Criatividade sem limites.

Há pouco tempo, o Brian fazia exatamente a mesma coisa. Há registros, provas materiais das brincadeiras imaginativas do Brian. E, embora tu talvez não acredites, meu filho, em algum momento o papai também montava pistas de ferrorama, criando cidades inteiras com caixas, latas e pontes que existiam apenas na imaginação.

Eu não sei quando é que crescemos. Não sei quando nos tornamos adultos. Nem em que dia acontece a última vez em que uma criança se senta no chão para brincar sozinha, criando mundos inteiros sem precisar de ninguém.

Também não sei em que dia será a última vez que o Lucca vai brincar assim, no chão da sacada.

E começo, aos poucos, a me despedir de ti na barriga da mamãe. Em muito breve estarás aqui conosco. E eu já sei que sentirei saudades de ti ali dentro, das conversas silenciosas, do pequeno alienígena se mexendo de forma quase monstruosa sob a pele da mamãe.

Todos os dias são uma despedida.
E, ao mesmo tempo, um boas-vindas a uma fase que ainda não vivemos.
Uma nova descoberta.

Toda escolha é uma perda. Mas não precisamos viver olhando para o que deixamos para trás. E é assim que as coisas são.

Tu ainda vais viver o tempo de sentar à mesa das crianças. A mesa onde serás servido, onde não precisarás escolher demais, onde poderás brincar com os amiguinhos, criar histórias improváveis, falar de hipóteses absurdas e mundos imaginários. Quase tudo será permitido.

A mesa das crianças não parece, mas é a melhor mesa do churrasco.

A mesa dos adultos é, na maioria das vezes, muito chata.
Exceto quando os adultos resolvem, por um instante, agir como crianças.

Te amo!

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