29 dias - Primeira vez

Meu filho,

Um dia tu conhecerás o tempo e o vento. Porque sim, o tempo voa.


Mas eu me refiro a O Tempo e o Vento, a obra de Érico Veríssimo. Um livro que atravessa três séculos contando a história do Rio Grande do Sul. Para os mais preciosistas, não se trata de um livro, mas de três: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Enfim, apenas uma lembrança das leituras mais do que obrigatórias dos vestibulares gaúchos.

Mas veja meu descuido. Nem quero falar do tempo, nem do vento, nem da obra, nem do Érico. Quero falar, de passagem, é do Luiz. O filho do Érico.

Luiz Fernando Veríssimo morreu há pouco, ainda esses dias. Era cronista. E eu adoro crônicas. Meus pensamentos são muito invasivos para ler ou escrever algo que vá além de poucas páginas. E o Veríssimo, filho, era um dos melhores.

Um dia te contarei melhor, mas houve um tempo em que eu fui sócio de uma loja de conveniência, dessas que tu ainda vais espiar do vidro do carro, nos postos de gasolina. E lá estava o senhor Luiz Fernando, com a esposa, abastecendo o carro. Na nossa loja, vendíamos exemplares da quase extinta Zero Hora, onde ele escrevia diariamente. Foi um dos poucos autógrafos que pedi na vida.

E ainda não é desse dia que eu quero te falar, embora tenha sido bacana. Quero falar de uma das crônicas dele. Confesso que não lembro bem do contexto geral, porque crônicas, às vezes, perdem a validade.

Mas de uma citação eu lembro perfeitamente.

Teria sido dita por Adão, sim, o primeiro homem, feito do barro pelo próprio Deus, para Eva, feita de uma de suas costelas, quando ele teve a primeira ereção da humanidade:

“— Chega para trás porque eu não sei até onde esta coisa cresce.” (Veríssimo, 1999)

Rá!

Filho, saberás o que é uma ereção no tempo certo. Quando também descobrirás que o teu "tico" serve para outras coisas além de fazer xixi.

E por que eu lembrei disso agora?

Porque de um ultrassom para outro, teu "peruzinho" dobrou de tamanho. Gigante! Olhei para tua mãe e disse: “Eu não sei até onde essa coisa vai crescer!”

Machão do pai. Sim, meu filho, papai é um bobalhão as vezes!

Te amo.


Em tempo, Luiz Fernando Veríssimo (1936–2024) foi um dos mais importantes cronistas brasileiros. A citação mencionada faz referência à crônica “A Primeira Ereção”, publicada originalmente no final dos anos 1990, na qual Veríssimo imagina, com humor e ironia característicos, a reação de Adão diante da primeira ereção da história. A crônica não trata de sexualidade de forma explícita ou vulgar, mas usa a situação como recurso narrativo para explorar o espanto humano diante do desconhecido e da própria condição diante do ineditismo.

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