40 dias - Machão do pai
Meu filho,
Tua mãe tem ficado mais sensível nestes últimos dias.
Faltando quarenta dias para o teu nascimento — ou para a data em que imaginamos
que tu irás nascer — as emoções ficam mais à flor da pele. Então, hoje, eu
queria te falar apenas de amenidades. Queria. Mas tu já sabes que o teu
pai não é muito bom nisso.
Da janela do escritório: “Ali, a poucos metros de mim, vi
o Getúlio Vargas passar abanando pra todos. O Getúlio Vargas!”. Ele me
contou em algum dos poucos momentos de conversa exclusiva de vô e neto, enquanto
terminava de atar os elásticos do bodoque construído artesanalmente na garagem.
Ele se apaixonou pela vó. Quis tirá-la do trabalho, cuidar
dela, provê-la. Na cabeça dele, era isso que os “machos” faziam: traziam o
sustento pra casa. Era uma forma de amor. Em contrapartida, não tinham hora pra
chegar, nem muitos limites para o que podiam fazer.
Naquela época, filhote, não havia exame de sexagem, nem
ultrassom. Essas modernidades que nos permitiram saber que, mesmo antes de
nasceres, já és o “machão do pai”. O parto era a grande revelação: guri ou
guria.
Lá na zona sul, o meu vô era conhecido simplesmente como “pai”.
Pai do meu pai, que vivia grudado com ele pra cima e pra baixo, especialmente
nos treinos do “Faixa Preta”. E foi justamente esse filho quem, até o final,
socorreu o pai nos momentos de desespero — até aquele derradeiro instante em
que, sentado num banco, o velho macho fitou o horizonte, cerrou os olhos e
tombou pra sempre.
De toda essa vida, de altos e baixos, acertos e erros — como
são todas as vidas — ficou um legado forte de honestidade, cortesia e uma certa
elegância gaúcha no uso da boina e do lenço no pescoço.
Muito pouco do “machão” com que o vô Adroaldo nos acolhia
tinha a ver com sexualidade — embora tivesse, é claro. Mas tinha a ver com
honra, decência, hombridade — um conceito mais amplo, difícil de traduzir para
o vocabulário de hoje.
Quero acreditar, meu filho, que nós, herdeiros dessa
história, conseguimos lidar melhor com o que sentimos; que conseguimos chorar
com mais facilidade; dividir o trabalho — lá fora e aqui dentro; compartilhar
as decisões; e, talvez, deixar nosso próprio legado sem repetir o que não
precisa ser repetido.
Vou avançando nas palavras e começam a vir um sem-número de
lembranças e histórias — vividas e contadas — de uns e de outros. Mas não quero
te cansar. Haverá tempo para ouvires algumas delas ao lado da cama quando fores
dormir.
Porque enquanto tu não vens, quero te falar do meu coração.
Coisas para tu leres em algum momento da vida, mesmo que eu já não esteja aqui
— sabendo, pelo teu pai, de coisas que serão só nossas.
Te amo.

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