40 dias - Machão do pai

 


Meu filho,

Tua mãe tem ficado mais sensível nestes últimos dias. Faltando quarenta dias para o teu nascimento — ou para a data em que imaginamos que tu irás nascer — as emoções ficam mais à flor da pele. Então, hoje, eu queria te falar apenas de amenidades. Queria. Mas tu já sabes que o teu pai não é muito bom nisso.

Quando eu era criança e íamos visitar os bisos Adroaldo e Terezinha, a primeira coisa que o vô dizia, quando me abraçava daquele jeito afetuoso que só avós sabem fazer, era: “machão do vô!”
Uma frase que, hoje em dia, faria muitos lacradores de plantão terem um treco. Mas havia um contexto, social e familiar, que moldava tudo ali pelos idos de 1980.

O “Vô Aldo” — Adroaldo — nasceu numa época de vida dura. Não só pra ele, mas pra toda a gente. A mãe dele morreu no parto, e ele foi criado por uma tia. Na adolescência, foi morar de favor com um tio, em Porto Alegre, onde era tratado com muita severidade. Entregava lenha de bicicleta pelas ruas íngremes do centro. Em troca, estudou no Colégio Anchieta, que hoje é um dos mais caros do estado.
Foi ali que ele aprendeu, equivocadamente, que mulheres se submetem aos homens, e que algumas coisas só os “machos” podiam fazer.

Um dia, ele me contou, viu um anúncio para escriturário. Ele tinha um diferencial: segundo grau completo e exímio datilógrafo. Candidatou-se e passou. Seu salário multiplicou-se, e ele deixou a moradia de favor para viver numa pensão no centro.
Foi lá que conheceu a boemia.

Da janela do escritório: “Ali, a poucos metros de mim, vi o Getúlio Vargas passar abanando pra todos. O Getúlio Vargas!”. Ele me contou em algum dos poucos momentos de conversa exclusiva de vô e neto, enquanto terminava de atar os elásticos do bodoque construído artesanalmente na garagem.

Ele se apaixonou pela vó. Quis tirá-la do trabalho, cuidar dela, provê-la. Na cabeça dele, era isso que os “machos” faziam: traziam o sustento pra casa. Era uma forma de amor. Em contrapartida, não tinham hora pra chegar, nem muitos limites para o que podiam fazer.

Naquela época, filhote, não havia exame de sexagem, nem ultrassom. Essas modernidades que nos permitiram saber que, mesmo antes de nasceres, já és o “machão do pai”. O parto era a grande revelação: guri ou guria.

O primeiro parto foi o da tia Sônia. A vó me contou, muitos anos depois, que o vô levou alguns dias para se conformar. Ele queria um filho varão. “Machos” tinham filhos homens, herdeiros de um legado.
De certa forma, assim foi quando o vovô Aldo nasceu.

Lá na zona sul, o meu vô era conhecido simplesmente como “pai”. Pai do meu pai, que vivia grudado com ele pra cima e pra baixo, especialmente nos treinos do “Faixa Preta”. E foi justamente esse filho quem, até o final, socorreu o pai nos momentos de desespero — até aquele derradeiro instante em que, sentado num banco, o velho macho fitou o horizonte, cerrou os olhos e tombou pra sempre.

De toda essa vida, de altos e baixos, acertos e erros — como são todas as vidas — ficou um legado forte de honestidade, cortesia e uma certa elegância gaúcha no uso da boina e do lenço no pescoço.

Muito pouco do “machão” com que o vô Adroaldo nos acolhia tinha a ver com sexualidade — embora tivesse, é claro. Mas tinha a ver com honra, decência, hombridade — um conceito mais amplo, difícil de traduzir para o vocabulário de hoje.

Quero acreditar, meu filho, que nós, herdeiros dessa história, conseguimos lidar melhor com o que sentimos; que conseguimos chorar com mais facilidade; dividir o trabalho — lá fora e aqui dentro; compartilhar as decisões; e, talvez, deixar nosso próprio legado sem repetir o que não precisa ser repetido.

Vou avançando nas palavras e começam a vir um sem-número de lembranças e histórias — vividas e contadas — de uns e de outros. Mas não quero te cansar. Haverá tempo para ouvires algumas delas ao lado da cama quando fores dormir.

E pensar que hoje eu queria te escrever só amenidades…
Não consegui.

Porque enquanto tu não vens, quero te falar do meu coração. Coisas para tu leres em algum momento da vida, mesmo que eu já não esteja aqui — sabendo, pelo teu pai, de coisas que serão só nossas.

Te amo.

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