60 dias - Contagem Regressiva
Meu filho,
Estou tentando organizar meus textos, escritos ao longo dos
anos. Não é uma tarefa fácil. Como já registrei algumas vezes, meu propósito ao
escrever sempre carregou uma inutilidade intrínseca: escrever, para mim, é
terapia, reflexão, um modo de conversar comigo mesmo. Talvez por isso eu nunca
tenha tido compromisso com uma sequência estruturada, periódica ou sequer
organizada.
Tenho escrito por amor à própria escrita — e por diversas
inspirações. A principal, e a mais recente, é a tua mãe: minha linda mulher,
minha princesa (no melhor sentido possível), ainda que ela tenha escolhido se
relacionar com alguém da plebe.
Ela me deu não só uma relação de amor e incondicionalidade,
acolhendo meus vícios e virtudes, mas também me deu o presente de uma família.
Quando casamos, já havia duas crianças que não são meus filhos, mas são meus
meninos também. São marcas permanentes que deixaremos uns na vida dos outros.
E eis que, neste ano, surgiu um novo amor.
E foi por um homem.
Um guri que cresce dentro do ventre da minha mulher. Tem
sido uma aventura — um conjunto de sentimentos, expectativas e medos que eu
jamais havia experimentado.
Sim, clichê.
Mas, verdade.
Eu já não alimentava expectativas sobre a experiência da
paternidade. A vida parecia ter tomado outro rumo. E então tudo mudou. Já
escrevi um pouco sobre isso — e certamente ainda vou escrever muito mais.
Hoje é o penúltimo dia do ano de 2025. Pelas nossas contas,
falta cerca de 60 dias para o teu nascimento. E, como propósito de ano novo,
decidi escrever esta série de cartas, acompanhando a contagem regressiva até a
tua chegada. Ainda que de forma breve, quero registrar esse atordoamento doce
que sinto diante da ideia de uma relação tão definitiva quanto a paternidade.
Este é o primeiro capítulo do que espero que seja um legado
— pequeno, mas teu.
Te amo!

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