57 dias - Privilegiado
Meu filho!
Vou conjugar este texto — e talvez os próximos — em segunda pessoa, usando o pronome “tu”, como se fala lá na terra do teu pai, com os “esses” e “erres” bem marcados na pronúncia.
Tu ainda estás no ventre da tua mãe, rolando, chutando e te mexendo como deve ser. Por vezes fico assustado, porque teus pés, mãos ou cotovelos formam pontas na barriga que, se por um lado parecem que vão romper a pele dela, por outro te expõem mais. E eu fico preocupado.
Tolices, talvez.
Há dias em que converso mais contigo, pela barriga; outros, nem tanto. Tenho a sensação de que tu ainda estás em outro lugar, outra dimensão, mais etérea. Mas estás aqui — a uns dois ou quatro centímetros sob a pele da mamãe.
O tempo está passando rápido.
Ontem iniciamos o nosso ano lavando tuas roupinhas, algumas herdadas, outras novas. Vais usá-las por muito pouco tempo, porque vais crescer rápido demais. Tivemos muitos cuidados: esterilizamos a lavadora, usamos sabão especial, secamos em alta temperatura e passamos tudo para que ficasse prontinho pra ti.
Talvez um pouco de “frescura” demais para um guri forte, saudável e “raiz”, como queremos que tu sejas. Mas tu és nosso bebê e, afinal, não custa ter um pouco mais de cuidado.
Outro dia eu estava pensando no teu nome. Já faz tempo que tu te chamas “Mateo Augusto”, mas eu ainda estava em dúvida sobre como iríamos compor o Souza do pai com o Silva da mãe — nomes brasileiros, populares, que ficariam bem no conjunto do teu nome. Enfim, decidi por Mateo Augusto Silva de Souza. É um bom nome, meu filho. Espero que te orgulhes dele, porque ele carrega o nosso amor por ti e a força dos teus ancestrais.
Somos miscigenados. Tens avós italianos, portugueses, negros, índios. Brasileiros, enfim. Talvez não falte lugar no mundo onde possamos encontrar algumas de nossas origens. Isso é uma bênção, meu filho. Não discriminarás ninguém por sua origem, raça ou cor, porque no teu sangue tens todas elas.
Enfim, tens um nome lindo, roupas para vestir e uma casa para morar. Nunca deixes de agradecer o privilégio que já tens, porque, neste mundo ao qual estamos te trazendo, nem todos têm tudo isso.
Te amo.



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