35 dias - Sorrisos
Meu filho,
Queria te falar sobre sorrisos. Ou sobre sorrir.
Estávamos aqui olhando algumas fotos, e as melhores foram
aquelas em que a fotógrafa flagrou a mamãe com o sorriso largo, daqueles que
precisam de toda a boca, todos os dentes, toda a alma. Um sorriso que entrega
tudo. Entrega um momento em que tudo está ali. Aqueles instantes que a gente
tenta prolongar.
Há muito tempo eu sei quando a mamãe está sorrindo, mesmo
que eu esteja falando com ela apenas por uma ligação telefônica. Eu já sabia
quando ela sorria quando ligávamos um para o outro, mesmo antes de sermos um do
outro.
Todos os dias, tento de alguma forma fazê-la sorrir. Não
apenas por ela, mas por mim. É uma espécie de carga rápida.
Um sorriso assim, largo, com a boca toda, todos os dentes,
toda a alma.
Naquela foto, a vovó tinha pouco mais de vinte anos. Havia
alguma comemoração acontecendo. E isso me fez lembrar de um outro sorriso dela.
A casa ainda cheirava à tinta, embora eu não lembre
exatamente do cheiro. Mas era nova. A cozinha era típica dos anos 80. Fórmica
brilhante, amarela, instalada sobre azulejos floridos; um fogão esmaltado; uma
mesa redonda de abrir, que depois serviria como mesa de estudos no meu quarto
de cerejeira.
A vovó, hoje eu sei, era quase uma menina. Usava um lenço de
seda, cetim ou algo parecido na cabeça, enquanto preparava o almoço. A
claridade entrava pela janela. A esperança se equilibrava em O Bêbado e o
Equilibrista, que ela ouvia. Não sei se na TV ou no rádio, provavelmente na
TV. Nosso país passava por novas transformações. Ensaiávamos a saída do regime
militar. Havia um movimento lá fora que eu não percebia entrar em casa.
No mundo real, nas bordas da cidade, as lutas de poder não
entram nas casas. Só os efeitos delas.
Mas não é disso que eu quero falar.
Naquela cozinha, naquela casa, naquela manhã, com a Elis¹ ao
fundo, a vovó me olha. Não diz nada. Apenas sorri. Um sorriso largo, com a boca
toda, todos os dentes, toda a alma.
É uma lembrança distante. Talvez com alguns detalhes
imprecisos. Mas é uma lembrança verdadeira.
Eu vi aquele sorriso outras vezes. Acho que menos do que a
vovó se permitiu ao longo da vida, enquanto se preocupava demais conosco, com
tudo, com todos.
Tenho certeza, meu filho, de que não haverá sorrisos mais
largos, com a boca toda, todos os dentes, toda a alma, tanto da vovó quanto da
mamãe, do que aqueles que elas darão quando estiverem contigo.
Te amo.
¹ Elis Regina (1945–1982) — Cantora brasileira, considerada uma das maiores intérpretes da música popular brasileira. A canção O Bêbado e o Equilibrista, composta por João Bosco e Aldir Blanc e eternizada na voz de Elis, tornou-se um símbolo do período de abertura política no final da ditadura militar no Brasil. Lançada em 1979, a música expressa, de forma poética e sensível, a esperança, a dor e a resistência de um país que ensaiava o retorno à democracia, razão pela qual ficou conhecida como um dos hinos da anistia e da redemocratização.



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