37 dias - É hoje!

Meu filho,

A mamãe me ligou agora!

Vem, ele está nascendo!

Eu estou no meio de uma reunião tensa com um cliente que atendemos no Brasil inteiro, tentando resolver situações que, na maioria das vezes, estão além do meu alcance. (Por sorte, tenho uma equipe incrível.)

Eu havia combinado com ela que, nestes últimos dias, atenderia qualquer ligação. Atendi. Só não fechei a câmera do computador — a reunião era online — e as pessoas viram apenas eu me levantar às pressas, deixando na tela um enquadramento nada nobre das minhas braguilhas enquanto eu me mexia de um lado para o outro.

Voltei para a frente do monitor, cheguei bem perto da câmera e disse apenas:

Pessoal, me desculpem. Meu filho vai nascer. Preciso sair. Alguém assume a reunião.

Não sei quem assumiu.
Não sei quem ficou.

Apertei o botão de shutdown do computador, peguei as chaves do carro e corri.

Foi então que me dei conta: eu não sabia exatamente para onde ir.

Ligo para a tua mãe.
Meu Deus… não tem sinal na garagem.

Abre o portão, preciso sair!

O sinal não volta. Ando um, dois quarteirões. Pronto: celular de novo.

Ligo. Chama. Chama. Nada.

Meu coração dispara.

Atende, por favor…

Ligo de novo. Nada.
De novo. Nada.

Sigo andando — perigosamente. Ouço uma voz interna:

Calma. Vai dar tudo certo. Tu só precisa chegar.

Respiro. Ligo de novo.

Agora sim. Ela atende.
Com uma tranquilidade assustadora.

Estou bem. Vem com calma.

Calma?!

Voo pela BR-101, Via Expressa, ponte, ziguezagueando como piloto de fuga. Um perigo!

Ligo de novo:

Estou chegando. Eu te busco aí em cima.

A mamãe trabalha num prédio com uma escadaria absurdamente longa logo na entrada. E sim — ela está trabalhando até o teu nascimento.

Jogo o carro por cima do passeio público. Não estou nem um pouco preocupado com a fiscalização no centro de Florianópolis.

É uma emergência! — brado para um público inexistente.

Corro em direção à porta. O piso está úmido. Choveu à noite.

E, como já aconteceu anos atrás num episódio com o Lucca, eu escorrego e caio miseravelmente no chão. Um espetáculo pelo qual eu deveria ter cobrado ingressos.

Estou anestesiado. A adrenalina percorre cada célula. Levanto em fração de segundos.

A mamãe ri — porque já vem descendo a escada com a ajuda de alguns colegas.

A médica! — ela diz. — Liga pra médica!

Verdade. A médica.

Onde está o telefone da médica? Qual o nome dela? Deve estar em algum lugar de alguma conversa no WhatsApp.

Achei. Ligo. Nada.
Ligo de novo. Nada.
Ligo outra vez. Nada.

Maldito Murphy¹.

Ligo para o consultório. Ufa. Alguém atende.

Meu filho vai nascer. Preciso da doutora!

A voz do outro lado permanece neutra, impassível. Parece até rir de mim. Será que me viu cair no meio da Mauro Ramos?

Moça, meu filho vai nascer. Preciso da doutora no hospital. Estamos indo pra lá.

Desligo.

A mamãe já está na porta.

Na porta de trás! — eu grito.

Os colegas ajudam ela a entrar no carro. Agradeço só com os olhos e volto ao volante.

Calma — ela diz, com uma serenidade irritante. — Não adianta não chegarmos.

Sim. Ela tem razão.

Percebo então que eu nem estava respirando.

Alerta ligado, buzino aqui e ali, avanço sinais, corto caminhos.

Calma — ela repete.

E eu sigo: sobe, desce, curva, para, anda, buzina, seta, esquerda, direita, trânsito!

Sai da frente!
Um xingamento semi-silencioso.

Entrada de Emergência”. Sigo para lá.
Só ambulâncias”.

Sim. Agora eu sou uma ambulância.

O senhor não pode estacionar aí — avisa o vigilante.

Manda guinchar! — respondo, mal-educado.

E sigo com a mamãe — e contigo querendo escapar da barriga dela — que agora me olha com certa severidade.

Não me importo.

Carteira do convênio e identidade — pede a recepcionista.

Pronto. Foi o fim da minha paciência.

Moça, meu filho vai nascer. Não posso fazer isso depois?

É o procedimento, senhor — responde ela, treinada por algum concorrente nosso que presta serviço no hospital.

Só podia… — balbucio.

Então vejo o rosto familiar da médica. Ela vira, sorri e diz:

Ele decidiu vir antes, então? Senta aqui e espera. Agora é comigo.

Como assim, agora é com ela? Eu quero estar junto o tempo todo…

A mamãe — já confortavelmente instalada numa cadeira de rodas — some contigo por aquela porta hospital adentro.


Não, meu filho.
Não foi assim.

Ainda não, pelo menos.

Estou apenas ensaiando como poderia ser. E confesso: espero muito que tu respeites a data agendada. Só de escrever isso eu perdi o fôlego.

Mas, enquanto tu não vens, fico pensando nas coisas que ainda preciso preparar — para que, se resolveres chegar antes, teu pai não saia feito um maluco desesperado pelas ruas da cidade.

Te amo.


¹ Lei de MurphyPrincípio popular atribuído ao engenheiro aeroespacial norte-americano Edward A. Murphy Jr. (1918–1990), segundo o qual “se algo puder dar errado, dará”. A lei não descreve exatamente o funcionamento do mundo, mas traduz com ironia a percepção humana de que, em momentos críticos, as pequenas falhas tendem a se acumular — especialmente quando estamos com pressa, nervosos ou emocionalmente envolvidos.

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