46 dias - Inutilidade

 


Meu filho,

Hoje pensei em tantos assuntos diferentes para te escrever que será necessário dividir em textos distintos. Um efeito mais didático, porque, em relação a ti, sim, eu quero ensinar e — tentar — imprimir aquilo que tua mãe e eu acreditamos ser o melhor.

Independente do mundo, tu és nosso filho, e queremos o melhor para ti.

Enfim.

Vamos lá. Sobre inutilidade.

Tenho outros textos que fazem referência ao conceito apresentado pelo Prof. Clóvis de Barros Filho¹ em um dos seus livros. Eu discutia com o Brian, teu irmão mais velho, que vive seu momento de adolescer e contestar — e, no caso dele, de forma bastante inteligente e profunda — sobre a tal inutilidade da felicidade.

“Ser feliz é tudo que se quer”, dizia uma música do Kleiton e Kledir². E a questão é: para que ser feliz? O que a felicidade nos traz que ela mesma já não entregue? Ora, se a felicidade é um fim em si mesma, ela é inútil, porque não serve para mais nada além dela própria.

Um parêntese: pensar, meu filho, é especialmente doloroso. Confrontarmo-nos com nossas convicções, com certezas que nem sempre deveriam ser tão definitivas, exige esforço. O pensamento vai e volta, percorrendo uma série de conceitos e paradigmas de muitas origens.

Então, voltando ao propósito da felicidade: de fato, ela é um fim em si mesma. Mas não existe impunemente.

O valor de qualquer coisa parece estar em sua medida de comparação, ou no seu oposto. O bem é o oposto do mal. A parte de cima, o oposto da de baixo. O lado direito é o oposto do esquerdo. O certo, o oposto do errado. E a tristeza, o oposto da felicidade.

Não vou me ater à semântica, mas à reflexão.

A tristeza — especialmente a sistemática, melancólica, crônica — se é o oposto da felicidade, também teria um propósito em si mesma. Mas, por outro lado, traz sofrimento, estagnação, torna o ambiente ruim para quem convive com alguém triste, reduz a produtividade, a criatividade. A tristeza é funesta sob todos os aspectos.

Haverá dias em que estarás triste. Nunca deixes que seja por muito tempo.

E, se é assim, a felicidade também tem suas consequências. Nessa minha analogia simplória — como são quase todas as minhas reflexões — ela traz euforia, movimento, leveza no ambiente, otimismo, produtividade, criatividade. A felicidade é vital sob todos os aspectos.

E haverá dias em que estarás muito feliz. Tenta fazer com que isso dure bastante tempo.

É fato, contudo, que o valor de se sentir feliz está em já ter se sentido triste (não por muito tempo).

Então, esteja feliz ou triste, pensa! Ainda que pensar seja dolorido, usa a centelha divina que há dentro de ti — o espírito criador — para que tua inteligência atue em conjunto com teus sentimentos. Ausculte teu coração com cuidado, não para deixar de sentir (isso é impossível), mas para interpretar: desfrutar ao máximo do que é bom e livrar-se rápido do que é ruim.

Não é fácil, eu sei — especialmente em algumas fases da vida. A vida é dura.
Por isso te escrevo, enquanto tu não vens: a vida é dura, mas é muito boa. Aproveita!

Te amo.

 

1. Clóvis de Barros Filho — advogado, jornalista e professor universitário brasileiro, conhecido por suas palestras e livros de filosofia aplicados ao cotidiano, ética e sentido da vida. Tornou-se referência popular por traduzir ideias filosóficas complexas em linguagem acessível.

2. Kleiton e Kledir — dupla de músicos brasileiros formada pelos irmãos Kleiton Ramil e Kledir Ramil, integrantes do movimento musical sulista dos anos 1970 e 1980. São autores de diversas canções populares, entre elas “Deu Pra Ti” e “Vira Virou”, e possuem forte ligação afetiva com a cultura do Rio Grande do Sul.

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