38 dias - Estou atrasado

Meu filho,

Não é fácil para ninguém reconhecer os próprios erros.

Ninguém.

"Por que você olha para o cisco no olho do teu irmão e não percebe a trave no seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', se você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão." - Lc 6, 41-42

O evangelho — aqui nas palavras de São Lucas — apenas revela algo que já sabemos há muito tempo: reconhecer-se como falho é um dos maiores desafios humanos.

E não é só dificuldade emocional. É um mecanismo de defesa.
É sobrevivência.

Pensa comigo: imagina viver todos os dias com uma pessoa cheia de defeitos; uma pessoa chata, ranzinza, rasa; ou então fútil, supérflua; ou o oposto, alguém tão profundo que nunca sai do lugar; alguém feio demais aos próprios olhos, ou narcisista demais; alguém autoritário ou submisso; arrogante ou simplório; egoísta ou exageradamente generoso.

Conviver diariamente com alguém assim seria terrível.

Pois bem: há uma única pessoa, apenas uma, com quem tu vais conviver todos os dias da tua vida inteira — tu mesmo.

Olhar-se no espelho e perceber-se como outro — reconhecer que tu és consciente da tua própria consciência — pode ser um exercício brutal. Confrontar identidades ocultas, traços negados, falhas repulsivas… tudo isso desperta a tendência natural à negação.

Hipócrita!

Mas não é por mal.
É por instinto.
É por conforto.
É por sobrevivência.

Mudar de verdade dói — e exige esforço, disciplina, humildade. Nosso corpo e nossa mente sempre buscarão o abrigo mais quentinho, a alternativa mais fácil, o pensamento que menos confronta.

Aliás, toda a história da humanidade é um grande esforço de conter nossos instintos. E o evangelho de Lucas é justamente mais uma tentativa de Jesus domar o “Lobo” dentro de nós — numa referência minha a Hobbes¹.

Cara, te enxerga!

Mas não te enganes: quando apontares o dedo para alguém, lembra que aquilo que criticas já morou dentro de ti — e talvez ainda more.

Então tu poderias me perguntar:

Pai, então cada um faz o que quer?

Não, meu filho.
Não faz.

A vida em sociedade é construída sobre acordos — frágeis, mutáveis, às vezes injustos, mas necessários. Porém o ponto fundamental é outro: se há alguém no mundo sobre quem tu terás verdadeiro poder de transformação, esse alguém és tu mesmo.

E, ironicamente, passamos a vida tentando mudar nossos pais, irmãos, amigos, esposa, filhos…
e não conseguimos mudar nem a nós mesmos.

Eu também não tenho conseguido.

E talvez por isso eu esteja aqui, escrevendo para ti enquanto tu não vens — tentando melhorar este homem que vive dentro de mim, tentando deixar registrado não só aquilo que eu sei, mas também aquilo que eu ainda falho em ser.

Esses textos não pretendem romantizar teu pai nem me colocar como referência absoluta de sabedoria. Ao contrário — às vezes exponho aqui vísceras minhas. Defeitos. Falhas. Contradições.

Porque todos temos o que melhorar, Mateo.
Todos.

Também escrevo porque queria que tu tivesses estado comigo naquele momento, sabes? aquele dia em que aprendi aquela coisa; queria que tu visse aquela beleza comigo; aquela sensação, aquela coisa, aquela. Queria que conhecesses mais meus amores, e menos as minhas dores.

Sinto que estou atrasado.

Às vezes nem sei por onde começar o texto do dia.

Por hoje, meu filho, te deixo apenas uma lembrança:
— parafraseando Nietzsche² — torna-te quem tu és!
Conhece-te. Melhora-te.
E, paradoxalmente, permite-te errar — não por negligência, mas por coragem.

Te amo.


¹ Thomas Hobbes (1588–1679) — Filósofo inglês, autor de Leviatã, onde descreve a natureza humana como marcada por impulsos e instintos que precisam ser contidos pelo pacto social. A ideia do “lobo” interno deriva de sua famosa frase “o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus).

² Friedrich Nietzsche (1844–1900) — Filósofo alemão, crítico da moral tradicional e autor de obras como Assim Falou Zaratustra. A frase “torna-te quem tu és” aparece em sua obra A Gaia Ciência, associada à ideia de desenvolver plenamente a própria essência e responsabilidade individual.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

43 dias - Curiosidade

26 dias - Determinação - do irmão (bem) mais velho

45 dias - Escolhas