53 dias - Epifania
Meu filho,
Uma das coisas que vais perceber ao longo da tua vida é que tudo muda — todos os dias, o dia inteiro.
Nossos humores, apetites e desejos. Nossos altos e baixos. Estamos mais ou menos motivados, mais ou menos mansos ou prudentes. Mais ou menos otimistas. Mais ou menos produtivos, interessados, ativos, determinados.
E isso é bom.
A monotonia de dias e verões infinitos tornaria a vida chata e sem propósito. E é aí que está o ponto: ainda que os nossos sentimentos e a nossa vontade mudem, o nosso propósito — aquele construído ou recebido em um momento de lucidez — precisa ser visto ao longe e mantido como um farol direcionador.
Ainda que o mar esteja revolto, que a noite avance e a chuva caia, enquanto houver a luz do farol, saberemos para onde navegar.
Mas não basta saber para onde ir.
É preciso remar na direção certa, caçar as velas, segurar firme o timão, estar atento. Com ou sem vontade, alegre ou melancólico, entusiasmado ou letárgico.
É aqui que surge uma das principais virtudes daqueles que conseguem sobreviver de forma próspera por aqui: a disciplina.
Disciplina, meu filho, é a capacidade de fazer o que precisa ser feito em direção ao nosso propósito, com base no que é bom e no que é do bem, independentemente da nossa vontade ou do nosso prazer.
É fazer o que precisa ser feito — ou o que combinamos fazer.
Honrar acordos e compromissos.
Cumprir a palavra.
Adiar o prazer momentâneo em favor de uma realização maior no futuro.
Isso não é fácil. Sei bem que não é.
Por muitas vezes sucumbi ao imediatismo. Muitas vezes não tive a envergadura moral que eu mesmo esperava de alguém movido por propósitos claros. Nem sempre soube exatamente o que eu quis. Em diversas ocasiões, deixei que as correntes e a maré me levassem.
Talvez a vida tivesse sido mais “macia” se eu tivesse sido mais duro comigo mesmo em alguns momentos.
Isso, ao menos, me dá a credibilidade de ter algumas epifanias, registrá-las e, em algum momento da tua vida, compartilhá-las contigo, quando decidires reler alguns dos pensamentos do teu pai.
Em tempo, há ainda outra coisa importante: a busca do equilíbrio.
O caminho do meio. Os tons entre os extremos.
Disciplinar-se indefinidamente sem olhar o caminho, sem perceber as flores, acreditando que a privação, por si só, te levará a um lugar onde — e apenas onde — a felicidade será possível, não é o que eu desejo para ti.
Por outro lado, viver apenas o momento, inebriar-se pelo hálito doce do primeiro amor ou acomodar-se apenas com pequenos desfrutes imediatos certamente trará frustrações no futuro.
Talvez aqui resida outra virtude essencial: o equilíbrio.
Então, Mateo, faltando 53 dias para o dia em que imaginamos o teu nascimento, em um dia em que te escrevo por um compromisso que assumi contigo nessa contagem regressiva, desejo que consigas definir um propósito para a tua vida; que tenhas disciplina suficiente para persegui-lo; e que, ao mesmo tempo, não deixes de desfrutar do caminho — equilibrando tudo o que há de bom em viver.
Te amo.



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