49 dias - Bisavós


 Meu filho,

Hoje foi mais um dia em que estávamos aqui organizando tudo para receber nossa família e nossos amigos para o teu Chá de Bebê. Tua mãe adora esse tipo de coisa. A melhor parte desses pequenos eventos talvez seja justamente a preparação. Todos os dias surgem novos planos, novos detalhes: cardápio, bebidas, acessórios, atividades, convidados, confirmações.

Aproveitamos para almoçar no meio do roteiro de compras, num restaurante novo aqui do bairro, do tipo self-service.
“A comida está fria”, comentou tua mãe, sem reclamar.

Lembrei, quase imediatamente, da dona Iolanda — tua bisavó, mãe da vovó Maris. Acho que, quando leres por ti mesmo estas memórias, vais achar curioso imaginar que eu também já fui criança.

Passei uma grande — talvez a maior — parte da infância com a tua bisa. Foi ela quem despertou em mim a conexão com nossos antepassados: as histórias da família que veio da Itália; os relatos sobre a “vovó Delfina”, que parecia ter sido uma espécie de cuidadora; as lembranças da ferraria do vô João Batista; e as histórias de quando a mãe dela engravidou aos 16 anos, casou e acabou isolada da própria família por dez anos, até que o marido pudesse buscá-la de volta.

A vó Iolanda saiu de casa já adulta, ficando mais tempo para ajudar a família com os irmãos menores. Depois foi para a capital, Porto Alegre, morar com as irmãs da Santa Casa de Misericórdia, onde trabalhou como técnica de enfermagem — uma formação conquistada a duras penas, por conta da baixa escolaridade.

Muita coisa aconteceu até ela se tornar a matriarca da família. Até o vovô Aldo seguia as regras rígidas da vó Iolanda. Ela não era fácil com ninguém. Exceto comigo.

Não que ela não tenha impresso em mim um código moral. Lembro daquele beliscão discretíssimo na missa de formatura da vovó. Mas lembro muito mais do acolhimento depois de um machucado, das conversas enquanto ela tricotava; lembro de assisti-la sentar-se ao lado do telefone fixo (que naquela época ficava preso na parede por um fio), abrir a grande caderneta no colo e fazer uma “ronda virtual”, ligando para amigas e parentes para saber notícias.

Um dia, a vó Iolanda resolveu subir numa escada de obras, de quatro apoios, nos fundos da nossa casa. Provavelmente queria atender alguma necessidade secreta e urgente de ter notícias nossas. A escada caiu. E a bisa caiu junto. E ela se quebrou. Toda. Em muitas partes. Lembro ainda, na névoa da memória, dela sendo levada num Chevette dourado. Depois, lembro de dar-lhe café em canudinho ao lado da cama. Uma sobrevivente que viveu quase 90 anos, apesar de dezenas de intervenções, cirurgias e um sem-número de doenças.

Já falei: ela era enfermeira. Muitas vezes, quando estávamos doentes, eu ouvia seus passos subindo as escadas e já sabia que receberia uma dolorida injeção. Tu já sabes como são doloridas essas agulhas, não é, meu filho?

A bisa trabalhava no hospital, no setor de pediatria. De lá também vinham inúmeras histórias: das vezes em que ela batizava pessoalmente crianças prematuras ou doentes, para “garantir-lhes a salvação”; de quando atuou como instrumentadora; das chefes rigorosas; da caminhada até pegar o bonde; e de tantas outras coisas.

Nestes dias em que contamos os dias regressivamente para a tua chegada, lembro da bisa dando conselhos para a vovó Maris quando ela estava grávida do tio Rafa e do teu dindo Cássio. Eu tinha sete ou oito anos. As instruções para produzir mais leite — aveia, água de arroz e outras coisas intragáveis; as discordâncias com o Dr. Lousada; as recomendações para banhos, curativos, trocas, temperaturas.

Olho para o teu trocador, a tua cômoda, tuas roupinhas, os preparativos da tua mãe, e vejo a vó aqui conosco, dobrando com seus dedos tortos cada fralda tua. Acredito que ela não esteja apenas na minha memória. De alguma forma, sinto ela aqui.

Nos últimos dias, ela queria voltar para a casa da infância; já não reconhecia aquela que construiu junto com o véio Chico. Apenas eu me despedi.

Tenho muitas histórias para te contar, Mateo, dessas quatro pessoas: a Iolanda, o Chico, o Adroaldo e a Terezinha. Vivi e convivi com todos eles. Papai do Céu vai nos dar uma forcinha extra, e teremos tempo para a bisa Terezinha ainda te dar uma bênção pessoalmente, porque, de todos os meus avós, ela ainda está conosco.

Ah, e por que lembrei da vó Iolanda? Porque, quando a mamãe comentou sobre a comida fria, lembrei do que a tua bisa dizia:
“Por mim, eu comeria direto das panelas, ainda no fogo; gosto de comida bem quente!”, com ênfase no “bem”.

Quando, mais tarde, leres o que fazíamos enquanto tu não vinhas, saberás que uma das coisas era revisitar, por tua causa, as nossas próprias histórias.

Te amo.

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