48 dias - Torcedor
Meu filho,
Ontem nosso time venceu por 4 a 0 o Avenida, na abertura do
Campeonato Gaúcho. E, embora eu saiba que ainda seja cedo para se entusiasmar,
cada vitória acende algo antigo, quase sagrado. Há glórias que não pertencem
apenas ao clube — pertencem à nossa história.
Quero te contar de um dia que mora em mim como um relicário.
Não sei ao certo o ano — talvez 1989 — quando teu avô me levou ao velho Estádio
Olímpico Monumental, a antiga fortaleza azul da capital de todos os gaúchos. Eu
era pequeno, mas lembro da luz, do cheiro da grama e da visão que tinha ao
subir as escadas para a arquibancada, quando o campo surgia, imenso, diante de
mim. Lembro de poucos nomes: Nildo, o atacante bigodudo; e Mazaropi, que
guardava nossas redes desde o Mundial.
E fomos campeões. Mais uma vez.
O Olímpico tinha um fosso ao redor do campo — um abismo de
três ou quatro metros de profundidade que separava o mundo dos torcedores do
reino dos jogadores. Era como se o gramado fosse um território sagrado,
protegido por aquele vazio que ninguém atravessava impunemente.
Mas naquele dia, filho, o impossível aconteceu.
Ao apito final, alguns mais ousados começaram a atravessar.
Pegaram as placas de publicidade — pesadas, de madeira e metal — e as
transformaram em pontes improvisadas sobre o precipício. E teu avô, com a
pressa de quem entende o valor de um rito, segurou minha mão e me levou com
ele.
E assim cruzamos o fosso.
Entramos no gramado do Olímpico como se invadíssemos um
templo. Milhares de torcedores, bandeiras, gritos, lágrimas, abraços. Eu e teu
avô estávamos lá, no coração do Imortal, vivendo um daqueles momentos que não
se apagam nunca.
Fui muitas vezes ao estádio, de ônibus, de carro, até mesmo
a pé — para honrar o nosso hino. Lá, teus tios começaram a dar seus primeiros
passos no futebol. Lá, teu pai aprendeu sobre pertencimento, identidade,
coragem e teimosia — virtudes nossas, e do Grêmio.
Mas deixa eu te dizer uma coisa: nada disso é só sobre
futebol.
Nosso time nos dá nome, origem e história. Faz-nos parte de
um clã. Nos dá adversários (sobretudo o Inter, blergs), provocações, lembranças
de domingos, quartas-feiras e churrascos. Teu biso, o véio Chico, foi sócio do
Grêmio por mais de 70 anos. Sete décadas. Setenta ciclos de uma vida inteira
marcada por esse manto azul, preto e branco.
Mas também é verdade que poucas coisas unem tanto as pessoas
quanto uma paixão inútil — dessas que definem quem somos.
Te tornar gremista não será fácil. Tens a concorrência do
Flamengo da mamãe; do Vasco do teu mano mais velho; e do Lucca, que resolveu
simpatizar com o Figueirense — veja só.
Mas todos já foram avisados: qualquer item de clube rival
que entrar em casa terá fim trágico e acidental na churrasqueira acesa.
Enquanto tu não vens, fico pensando no dia em que te levarei
à Arena. Quero te mostrar o campo, o cheiro da grama, o rugido da Geral, o eco
das nossas glórias passadas — o lugar onde milhares vivem e morrem um pouco a
cada jogo.
Quero te ver vestir as cores do Imortal e sentir, como eu
senti, que pertences a algo maior do que tu — uma história que começou muito
antes do teu nascimento e que, um dia, também será tua para continuar.
Meu filho, prepare-se: ser gremista é carregar uma epopeia
no peito.

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