36 dias - Aprendizado

Meu filho,

Não saiba de tudo.
Melhor ainda, nem tente saber de tudo.

Mas saiba muito. Saiba tanto quanto puder sobre tudo o que desejares e precisares.
Sim, porque haverá conhecimentos que tu precisarás aprender, ainda que não queiras.

Ainda assim, será pouco. E é importante que saibas disso. Por mais que aprendas, sempre saberás muito pouco.

Se eu tivesse que definir o que sei, diria que conheço apenas uma gota num oceano de ignorância.
E olha que eu nem me considero tão ignorante assim.

Haverá inúmeras coisas inexplicáveis. Camadas e mais camadas de conhecimento, de entendimento e de percepção da realidade, inclusive daquela que parece simples aos nossos sentidos. Em algum ponto, será preciso aceitar o desconhecido como uma fronteira intransponível.

Aquilo que a mamãe e eu tentaremos te ensinar, aquilo que a escola, os livros, a internet e as inteligências artificiais tentarem te ensinar, nada disso é muito.
Entende tudo isso apenas como sendo o básico.

E não te satisfaças com o básico.

Estuda. Descobre. Investiga. Questiona.
Sobretudo, fundamenta o teu pensamento além do trivial, do comum, do óbvio.

E ainda assim, não será suficiente para saber de tudo.

Há quem diga que a ignorância é uma bênção. Afinal, não sofremos por aquilo que não conhecemos; não precisamos agir sobre o que ignoramos; não nos preocupamos com informações que nunca chegaram até nós. Há quem vá além e, deliberadamente, esconda o conhecimento por trás de artifícios mentais para não se confrontar com verdades que exigiriam decisões difíceis.

A mente humana é capaz de fazer isso sozinha, criando mecanismos extremos, como a negação persistente, a senilidade e outras doenças do pensamento.

Mas a ignorância também pode ser útil.
Ela abre espaço para a iluminação.

Se eu já soubesse tudo, não teria mais nada a aprender.
Se eu não soubesse nada, ainda teria tudo a aprender.

Essa ideia vem de um senhor velhinho, um tal de Sócrates¹: “Tudo que sei é que nada sei.”

É claro que isso é meio idiota, porque alguma coisa ele sabia. Nem que fosse filosofar em frases de botequim que atravessariam séculos até chegarem ao sacrílego do teu pai aqui. (Estou sendo irônico, porque a frase, assim, sintética, talvez nunca tenha sido dita exatamente dessa forma por Sócrates).

E eu me associo à ideia, embora eu seja tão firme, por vezes, ao defender minhas próprias convicções, que posso parecer arrogante. Evitar essa percepção, às vezes, me impede de ajudar outras pessoas com o pouco que eu conheço. Não será o teu caso, porque o pai, por princípio, ensina. Mais do que isso, educa.

No fim das contas, é muito chato conviver com alguém que sabe tudo. Alguém que não admite novas ponderações, novas reflexões, novas abordagens. Especialmente quando, por óbvio, essa pessoa, assim como nós, é ignorante sobre a imensa maioria das coisas.

Todos somos ignorantes e incompetentes na maior parte do que existe.

Mas tu não precisas te conformar com isso.
Se não sabes, aprende.

Quando chegares à idade de ler estas cartas por conta própria, a tecnologia, que hoje já me assusta, estará ainda mais presente no teu dia a dia.

Aprende sempre. Já te disse isso.

A ignorância, por si só, é uma maldição, meu filho.
A sabedoria talvez seja justamente reconhecer isso e, a partir daí, manter-se permanentemente aprendendo alguma coisa.

Um paradoxo, talvez. Viver e aprender são movimentos, não fatos. Você está vivendo e aprendendo. Quando terminar de aprender, termina de viver.

E sabes qual é o melhor jeito de aprender?

Ensinando.

Mas isso…
fica pra outro dia.

Te amo.


¹ Sócrates (c. 469–399 a.C.) foi um filósofo grego considerado um dos fundadores do pensamento filosófico ocidental. Não deixou obras escritas; seu pensamento é conhecido principalmente por meio dos relatos de seus discípulos, especialmente Platão. A frase “tudo que sei é que nada sei” não aparece literalmente em seus escritos, mas sintetiza a atitude socrática de reconhecer os limites do próprio conhecimento como ponto de partida para a investigação, o diálogo e o aprendizado contínuo.

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