32 dias - Mateo Velho
Meu filho,
Hoje o assunto é um pouco mais racional.
Quero falar um pouco sobre o seu futuro. O mundo é um ambiente hostil. Já falamos sobre isso. Mas, no geral, ele também é bom, e eu já falei sobre os privilégios que temos. É justamente por isso que não podemos desperdiçá-los.
Todos os dias estamos consumindo recursos e riquezas. E, quando falo em riqueza, não me refiro apenas a dinheiro ou ao fato de ser rico, mas a tudo aquilo que tem valor ou poder de troca. O papai e a mamãe, por exemplo, têm como riqueza o trabalho, o tempo e a cognição. Temos poucas reservas, ainda não o suficiente para atravessarmos a vida sem trabalho, pelo menos por enquanto. Há pessoas que possuem meios de produção, têm empresas, e nelas outras pessoas contribuem para a produção e geram excedentes, o que lhes permite proporcionar riqueza para outras pessoas. Outras, ainda, são apenas abastadas. Têm provisões e riquezas estocadas, ativos que podem ser consumidos ao longo do tempo, garantindo a vida enquanto ela perdura, às vezes por gerações.
Portanto, as formas de acumular, gerar e produzir riquezas são múltiplas. Algumas vêm de gerações passadas e se multiplicam com o tempo. Outras são originais. Algumas vêm do trabalho árduo. Outras, da mera sorte. É fato que há diferenças na distribuição das riquezas, e isso gera conflitos em escalas individuais, familiares, sociais e globais.
É um assunto longo e, para ti, que ainda nem chegaste, talvez seja enfadonho. Até aqui estou apenas contextualizando. Teu pai entende que a riqueza, e o direito sobre ela, é resultado do mérito de cada um, inclusive quando parte dela foi recebida por graça de alguém ou do chamado destino. Ninguém está automaticamente condenado a viver com o pouco que tem, assim como ninguém está definitivamente abençoado com reservas infinitas.
São as nossas decisões que farão com que tenhamos mais ou menos conforto, e mais ou menos consumo, ao longo da vida.
Há uma fábula de que eu gosto muito, e vou resumi-la:
“A cigarra passou o verão cantando, aproveitando os dias quentes, sem se preocupar em juntar comida. A formiga, ao contrário, trabalhou incansavelmente, armazenando provisões para o inverno.
Quando o frio chegou e a comida faltou, a cigarra, faminta, procurou a formiga e pediu ajuda. A formiga, então, lembrou-lhe que, enquanto ela trabalhava, a cigarra apenas cantava. Assim, ensinou que é preciso pensar no amanhã enquanto se vive o hoje.”
Essa história costuma ser vista pelo olhar da formiga. Ela trabalhou incansavelmente, mas não cantou. E perde quem não canta. Não há sensação, não há brilho, não há desfrute no silêncio dos túneis do formigueiro.
Por outro lado, a cigarra, sem comida, morre. Miserável, mendigando às portas da formiga.
Mais uma vez, filhote, o caminho do meio, o equilíbrio e a sabedoria serão fundamentais para que tu não deixes de aproveitar os dias de verão, mas também não sofras no inverno da vida.
Há quem prefira nem pensar no amanhã, porque, afinal, o futuro a Deus pertence, como diz o ditado popular. Mas, quando o futuro chega sem ter sido preparado, ficamos sem presente, porque não cuidamos, no passado, de quem somos hoje.
Então, agora, aproveite o colo do papai, os presentes dos vovôs, os mimos dos dindos e dos titios. Brinque. Nós estamos aqui cuidando de ti. Mas, em seguida, estude, leia, aprenda. Não estude apenas o que está no livro ideologicamente manipulado da escola. Faça contrapontos, critique, reflita. Leia outros autores, controversos e disruptivos.
Trabalhe com sabedoria. Não apenas fazendo e se concentrando somente na tua atividade, mas olhando por sobre os próprios ombros. Avalie o que estás fazendo como se fosses outro. Seja estratégico.
Ouse. A ousadia é a marca mais comum entre os grandes empreendedores. Não há problema em fracassar. De verdade, não há. A vida vai continuar mesmo depois do fracasso.
Não tenha pressa. Não antecipe decisões importantes. Por outro lado, não te escondas nem te acovardes diante dessas mesmas decisões. E não gaste tudo o que tens. Não pense apenas no Mateo de hoje. Pense no Mateo do futuro, no Mateo velho.
O papai só vai conseguir cuidar do Mateo criança, talvez do jovem. Mas do velho, meu filho, esse é contigo.
Te amo!

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