58 dias - Farol e Porto

 

Meu filho,

Um dia vais olhar para uma menina e o teu coração vai parar. Vais sentir um aperto um pouco acima do estômago e ter dificuldade de pensar em qualquer outra coisa que não seja o sorriso, o olhar ou o perfume dela.

Provavelmente vais fazer alguma coisa idiota, ficar com cara de bobo, dizer coisas das quais vais te arrepender depois. Vais querer estar onde ela estiver, criar motivos para vê-la, ouvi-la ou senti-la.

E nem sempre ela vai sentir a mesma coisa.
Talvez nem sempre ela possa sentir a mesma coisa.

E isso vai doer.

Não te falo isso em tese. Isso vai acontecer.
Porque aconteceu comigo.

A menina que me fez perder o fôlego, seja lá quando estiveres lendo isso, hoje tu chamas de mãe.

Eu já escrevi muito sobre a mamãe. Já escrevi muito para a mamãe. Mas ainda não havia escrito, para ti, sobre a mamãe.

E que sorriso ela tem. Sei que já viste o brilho desse sorriso quando ela olha pra ti. Sei que é no peito dela que tu te alimentas, ou te alimentaste, e é no mesmo colo que eu me refugio e me encontro, mesmo quando não estou perdido.

A Andreza, como outras pessoas a chamam, já esteve de muitas formas na minha vida antes de ser minha namorada, minha esposa e minha amante. Ela já foi colega, já foi amiga, já foi chefe. Sim, ela foi.

Não consigo explicar o quanto ela transformou a minha vida. Ela me salvou. Já foi farol na neblina e porto na tempestade. Eu imaginava que ela fosse assim só comigo, mas ela é assim sempre, com todos. Ela direciona e protege. Todos.

Vais descobrir, com o tempo, o quanto ela também será farol e porto pra ti.

Comigo, é mais. Ela desperta outros instintos, mais primitivos, que não vêm ao caso. Basta dizer que deles tu nasceste.

O que eu queria te dizer é que a mamãe fez de mim teu pai. Fez-me experimentar essa coisa louca que é a paternidade, essa coisa ainda mais louca que é amar incondicionalmente.

Eu não sei, Mateo, como dizer obrigado. Talvez tu me ajudes.

Espero que ela descubra, ao ler escondida, esta carta que guardo pra ti.

Te amo.
E amo a mamãe também.
(Só que mais.)

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