50 dias - Mundo Louco


Meu filho,

Vamos tentar adiar ao máximo o teu acesso ao que, contemporaneamente, chamamos de “redes sociais”. Mas não consigo negar que, hoje, elas fazem parte da nossa vida hiperconectada. Para ti, isso não será inovação nem modernidade; tu vais nascer em uma era já totalmente digitalizada. Imagino que será difícil conceberes um mundo diferente deste.

Dizer-te que o mundo é volátil não será novidade alguma, porque jamais terás vivido em um mundo estável e constante — pelo menos do ponto de vista da vida cotidiana e prosaica. A instabilidade será rotina. Surfarás ondas de mudanças econômicas, de mercado e de poder, que, aliás, marcarão toda a tua geração.

Eu vejo o mundo, ouço as notícias e percebo um tempo muito complexo. Mas tu, em alguns anos, talvez olhes pra mim e digas:
“Complexo por quê, pai? Isso é tão simples!”

Tenho certeza de que surgirão questionamentos sobre muitas das nossas certezas — algumas das quais, de fato, poderão (e deverão) ser revistas.

Quero acreditar que tudo isso possa ser bom.
Tenho dúvidas.

Há quem imaginasse que, até aqui, o mundo já não teria fome, doenças ou guerras. A fome nunca deixou de existir — especialmente se considerarmos que não ter onde morar, o que vestir ou um banheiro limpo para usar também são formas de miséria. Quanto às doenças… ora, acabamos de sobreviver à maior pandemia de todos os tempos. Mascarados e isolados, vivemos um desespero coletivo. Todos nós perdemos, pelo menos, um grande amigo para a COVID.

E as guerras, que antes imaginávamos ser conflitos isolados em algum canto distante do globo, tornaram-se uma nova preocupação. E, mesmo que não fossem guerras globais, seriam as guerras da violência urbana, da qual tentamos nos proteger dentro das nossas próprias casas.

É importante olhar ao redor e questionar tudo o que te for apresentado como verdade.

Será ainda mais difícil para ti. Existe um ditado antigo que diz: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Pois bem… não vale mais. Surgiu há pouco — muito pouco mesmo — um negócio chamado IA. Para ti, talvez nem seja esse o nome. É possível que tua educação seja toda mediada por pessoas que nunca existiram de fato. Teus professores talvez jamais sejam pessoas humanas. Mas nem por isso deixarão de ser reais. Serão virtuais — e reais.

Hoje, no início do segundo quarto do século XXI, tudo isso é uma grande novidade.

Quero acreditar que tudo isso possa ser bom.
Tenho dúvidas.

Por isso, ouve todos os lados; relaciona-te com todas as pessoas; dá espaço ao contraditório; desconfia das certezas fáceis; ouve e lê sobre tudo. Mas não abras mão das tuas convicções, nem de te posicionares diante do que é bom, certo e justo.

Escolhe com cuidado as tuas batalhas — algumas não valem a pena. Não agregam. Só cansam.

Quando, mais tarde — talvez bem mais tarde — vieres a ler as coisas que teu pai escreve, saberás também que, enquanto tu não vinhas, eu ficava aqui pensando:
como é que esse guri vai lidar com esse mundo louco?

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