28 dias - Ídolos


Meu filho,

Aos poucos, vou te contando sobre algumas pessoas que fizeram parte da minha vida e que, de alguma forma, perto ou longe, farão parte da tua também.

A vovó já te contou que eu nasci quando ela ainda era bem jovem. Mas mais jovem ainda era o “mano”, o irmão mais novo dela.

Luiz Francisco. Assim como tu, o biso completou o nome do filho com o próprio nome. Não esquece: tu és tão Augusto quanto eu, por exemplo.

Hoje, porém, eu quero te falar sobre o meu tio. Ele sempre foi um tipo de ídolo para mim. Não sou um homem de ídolos, embora admire algumas pessoas especiais. Ainda assim, ele acabou servindo como modelo, mesmo sem que ele ou eu soubéssemos disso.

Morávamos a uma escadaria de distância. Ele é tão mais velho em relação a mim quanto tu és mais novo em relação ao teu irmão mais velho, o Brian. Não por acaso, sempre o chamei de “Mano”.

Meu tio sempre soube conversar sobre tudo. Sempre entendeu um pouco de tudo e sempre foi muito habilidoso com quase tudo — pelo menos com quase tudo que eu conhecia. Mexia em carros, no motor e na lataria. Mexia com madeira. Mexia com números. Tinha perfumes diferentes no armário e um Ray-Ban modelo aviador, guardado num case preso ao cinto. E tinha um Chevette, com o qual me levava ao cinema com a namorada, às festinhas e a todo tipo de passeio.

Ele é meu padrinho de crisma. Eu sou padrinho de batismo do Filipe, filho dele. Sobrinho, afilhado e compadre. Somos família, sabe? Ainda assim, poucas vezes conversamos com profundidade ou com verdadeira intimidade. Não me recordo de termos mostrado um ao outro nossas fragilidades, embora elas sempre tenham estado ali, percebidas em silêncio, de parte a parte.

Outro dia, a vovó me contou que a vida do meu tio estava diferente.

Outra cidade.
Outros amores.
E uma batalha nova para enfrentar.

Não sei bem o que dizer. Às vezes, é tão difícil dizer qualquer coisa.

O tempo, a distância e a vida — que nos aproximam de uns — acabam nos afastando de outros. Independentemente disso, o afeto, o carinho e as memórias permanecem. Assim como a torcida, ainda que em silêncio.

Nossos ídolos não deveriam adoecer.
Nem envelhecer.

Se for para escolher, prefiro que fiquem bem velhinhos.

Vamos ver juntos, meu filho, como o grisalho do teu tio-avô vai combinar com o Ray-Ban de aviador, em breve.

Te amo.

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