47 dias - Espaçoso
Meu filho,
Cada dia que passa, tu ocupas um espaço maior dentro das
nossas vidas. Não é só no calendário, não é só na espera — é no nosso sentir
mesmo, como se estivesses conosco há muito tempo. A cada manhã, tua presença se
revela mais, sobretudo dentro da tua mãe, que te carrega com uma força que só
as mães conhecem.
Teu corpo, praticamente pronto, agora cresce em volume como
quem se estica para o mundo. Tua energia parece aumentar sem limites, como se
tivesses pressa de participar de tudo. Teus movimentos — teus espichões, teus
pés, tuas mãos pequenas, teus cotovelos inquietos — percorrem o ventre da tua
mãe como grandes sinais de vida, lembrando-nos a todo instante de que tu já és
alguém. Empurras órgãos, mudas o centro de gravidade dela, reclamas espaço com
a naturalidade de quem pertence ao lugar onde está – por pouco tempo!
Ela sente tudo: os pés inchados, a respiração mais curta, os
movimentos mais lentos, a dificuldade para encontrar uma posição confortável na
cama. Sente as dores discretas, as pressões internas, o peso doce da
maternidade avançando.
Mas, sabe… em nenhum momento ela reclama. Não há queixa, não
há lamento. Há apenas constatações ditas com serenidade — “ele mexeu”, “apertou
a bexiga” — e uma entrega silenciosa, uma resignação materna que carrega uma
beleza impossível de descrever só com palavras.
Ela não deixou de fazer nada. Durante todo o final de semana
estivemos em movimento: nossas lidas domésticas, nossas lidas profissionais,
nossos compromissos e rotinas. E a tua presença, ainda que espaçosa — como deve
ser — não trouxe nenhuma sombra de letargia ou paralisia. Pelo contrário:
parece até que deu a ela ainda mais motivação.
E eu fico completamente atônito. Admirado. Impressionado com
tudo isso. Com a força da tua mãe, com o modo como ela te protege antes mesmo
de te ver, com a coragem silenciosa de quem gera uma vida dentro de si. Fico
pensando em como Deus é generoso conosco — pelas novas chances que nos dá, pela
delicadeza com que permite que nossa família cresça, pela disposição incansável
da mamãe em cuidar de ti, de nós, de mim e dos teus manos.
Também sou grato pela nossa família inteira, que está aqui
conosco de uma forma ou de outra — no corpo, no pensamento, no espírito, nos
gestos e nas palavras de apoio. Por todos que esperam por ti junto conosco, que
já te imaginam, que já te querem bem.
Sejamos sempre gratos, meu filho, porque as bênçãos que
temos são imensas. Maior do que tudo é o fato de que tu já fazes parte de nós,
mesmo antes de respirarmos o mesmo ar.
E teu velho está aqui, registrando acontecimentos,
pensamentos, memórias antigas que voltam com força. Anotando este capítulo que
vivemos enquanto tu ainda não vinhas — para que um dia, quando leres, possas
sentir que, desde sempre, foste esperado com amor e esperança.

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