51 dias - Baratas


Meu filho!

Enquanto tu não vens ao mundo, seguimos atravessando os dias como quem navega por mares sem rotina. Teus irmãos, em férias, vivem no caos alegre de quem ignora relógios e calendários. E tua mãe… ah, tua mãe! Uma verdadeira heroína. Carrega-te numa barriga já quase lendária, caminha contigo para cima e para baixo, faz pilates como uma amazona treinada, trabalha, produz… uma Mulher-Maravilha da vida real — sem capa, mas com uma força que até os deuses respeitam.

Da minha parte, tento facilitar a jornada dela.

Vais nascer por estas terras mágicas, provavelmente na chamada “Ilha da Magia”, Florianópolis. Mas teu pai é gaúcho — e disso trago alguns legados sagrados. Um deles, o maior de todos (depois do chimarrão), é o churrasco.
Ah, meu filho… tua iniciação gastronômica será com carne! Vais te lambuzar com um pedaço mal passado, talvez ainda sem dentes, com a bravura de um pequeno guerreiro provando seu primeiro naco de vazio ou costela assada na brasa ancestral.
Mas calma — tudo ao seu tempo. Por ora, apenas o leite da tua mãe, o elixir primordial dos recém-chegados.

Voltando à nossa vida comum de heróis cansados… eu dizia que tenho tentado facilitar o fardo da tua mãe. E nessa mística arte do churrasco, desde eras imemoriais, acabei assumindo a cozinha como o meu domínio. Ontem, por exemplo, preparei bife com batatas fritas — o prato preferido dos teus irmãos, que devoram como pequenos bárbaros famintos.

Pois eis que, durante a missão na churrasqueira, surge o inimigo mais temido das cozinhas e dos corredores noturnos: a barata.
Repugnante.
Ardilosa.
Imorrível.
Um ser forjado nos pântanos sombrios do Antigo Mundo.
Um monstro que desafia a própria coragem humana.

E, ainda assim… lá estava ela.
E lá estava eu.
E alguém precisava resolver.

Não gosto. Ninguém gosta. Ninguém jamais gostou.

Mas, Mateo, meu filho, existe um momento em que deixamos de ser apenas homens… e nos tornamos o homem da casa. E o homem da casa, goste ou não goste, lida com o que tem que ser lidado.
E aquela criatura rastejante não teve chance diante da minha chinelada — golpe rápido e preciso como um trovão lançado por Thor.
Caiu.
Padeceu miseravelmente.
Como tinha que ser.

Porque é isso que fazemos.
Na nossa casa.
No nosso lar.
No nosso castelo.
Nós resolvemos.

Erguemos muros contra os bárbaros.
Reparamos chuveiros que desafiam a gravidade.
Desentupimos esgotos que fariam Hércules chorar.
Trocamos lâmpadas que apenas os corajosos alcançam.
E derrotamos insetos que ousam perturbar o reino.

E sim — às vezes esse “homem da casa” é, na verdade, uma Mulher-Maravilha, como a tua mãe, que manteve tudo de pé antes da minha chegada.

Mas tu, meu filho… tu também serás treinado.
E quando chegar o teu dia, enfrentarás a tua primeira barata — e vencerás.

Porque heróis não fogem de missões pequenas.
E grandes homens não fogem de missão nenhuma.

Enquanto tu não vinhas, meu filho, também matamos baratas!

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