Faça sua mágica!
Somos seres mágicos. Estou
convencido disso. Na infância, lembro-me bem, feitiços em maçãs e poções
mágicas garantiam sonos profundos, juventude eterna e muito mais. Contos de
fadas. Será?
Olheiras. Preciso dormir mais.
Não dá. Faz menos de seis horas que deitei. Cruel despertar. Hoje não vou correr.
Olho nos olhos do sujeito no espelho. Tomo uma bronca. Ele também está dividido
entre a cama e a rua. Decidimos sair. Vamos de arrasto, como um alcoólatra fugindo
do primeiro gole. Baby steps. Não
preciso correr hoje, ainda discuto com o cara do espelho. Nova bronca. “Você já
está de pé”, ele argumenta. Sou eu que decido! Estou no controle. Posso
desistir. Fraco! Ele berra. Ok, os argumentos são fortes. Abraço o volante do
carro, ainda brigando, e sigo até a beira do rio. Vou correr. Fones de ouvido.
Preciso de incentivo. Play! Aumento o volume.
Começo a caminhar. Devagar, o tornozelo ainda dói, minhas pernas
ainda doem. Maldita fratura mal curada.
Meus olhos ainda se ressentem da luz. Sono. Cinquenta metros. Cem. Ainda
caminhando. Percebo que posso fluir um pouco melhor os movimentos. Acelero.
Mais do que uma caminhada, menos do que uma corrida. Sinto o pulso acelerar.
Respiração levemente mais forte. Aumento o volume do iPhone. Titanium. “I’m bullet proof”, diz a música. Parece que é comigo. Posso
acelerar mais. Agora sim. Corro. Pulsação acelera mais rápido do que eu esperava,
fico um pouco ofegante. Talvez precisasse ter aquecido mais. Mas, não paro. “Nothing to lose, far away, far away”, acredito. Estabilizo. Corro. As
passadas reverberam, cadenciadas na batida da música. Sinto a hipófise
liberando endorfina. Meu corpo começa a sentir a própria droga. Relaxo. Corro.
Braços em movimento. Acelero. Um quilômetro, dois, cinco. Não quero parar.
Poderia correr o dia todo. Passada a passada. Transpiração. Roupa molhada.
Sensação absoluta de prazer. Preciso parar. O trabalho me chama. Preciso parar.
A endorfina ainda circula. Paro. Suor transborda pelo rosto. Endorfina. Ainda
fico experimentando isso por alguns minutos. Poderia correr mais. Deveria? Quem
sabe amanhã.
Seres mágicos. Da negação ao prazer.
A endorfina liberada pode viciar? Penso que sim. Se fosse produzida
sinteticamente e vendida? Já é. Em outras versões, outras drogas. Viciantes.
Perigosas. Poções mágicas de prazer. Só o prazer é perigoso. “Numa mão a caixa
de ferramentas, na outra a caixa de brinquedos”. Estou com a frase filosófica
na cabeça. Preciso compensar. Ferramentas e prazer. Mágico. Mágica
oportunidade de viver.
Enfim, devaneios e divagações a
parte. Se eu pudesse recomendar alguma coisa, seria algo do tipo: faça sua
mágica!
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