"Radar Afetivo"
Numa era de
textos em 140 caracteres, escrever tanto e esperar que alguém leia é quase ilusão. De toda forma, tenho dito que escrevo em caráter terapêutico, portanto,
que seja.
Uma tragédia
nos comove, nos emociona. Talvez, toda
tragédia nos emocione. Especialmente quando envolve pessoas que estavam no
nosso “radar afetivo”. Este termo não é meu, tomo a liberdade de usá-lo. Ouvi
do Dr. Nestor Heim, vice-presidente jurídico do Grêmio, em entrevista à Rádio
Gaúcha. Crédito concedido.
Obviamente,
refiro-me ao acidente aéreo com a delegação da Chapecoense, onde mais de 70
pessoas morreram, entre jogadores, jornalistas, assessores, auxiliares, enfim.
Se, por ventura você estiver lendo isso daqui a 20 anos, essa contextualização
talvez seja necessária.
Dentre as
vítimas estavam pessoas conhecidas pelo grande público. Estavam nas nossas
casas aos finais de semana, através dos televisores. Pessoalmente, algumas estavam
no meu “radar afetivo”. Amigos dos meus irmãos. Colegas. Ex-colegas e chefes. Outros
eram personalidades, admiradas ou não. Todos com suas histórias, famílias, sonhos
e frustrações. Pessoas que como você e eu tinham uma série de projetos, de
desejos; muitas dúvidas e poucas certezas. Certamente, olhavam suas vidas
adiante e julgavam ter tempo para fazer ainda muita coisa. Bem, tudo isso foi
interrompido.
Acontece que
numa tragédia dessas também nos permitimos incluir pessoas do nosso “radar
afetivo”, que não estavam lá. Trata-se apenas de um exercício de imaginação.
Como seria se meus irmãos estivessem lá? Eles que por tantos anos jogaram
futebol profissional juntos, voando 4, 6, 8 vezes por semana? Como seria se
meus pais estivessem lá, porque sempre foram a tantos jogos tantas vezes? Como
seria se eu, ou você, estivéssemos lá?
Quando pensamos nisso, nossa emoção deixa de ser diretamente por aquelas vítimas que realmente se foram, e passa a ser conosco, por simplesmente entender que a realidade brutal dos fatos se impõe, e nos diz claramente que hoje pode ser o último dia por aqui! Não, não. Não apenas o meu, ou o seu último dia, mas, desta pessoa aí ao seu lado. Daquela pessoa que está na sua casa, ou daquela que você não disse o que precisava ser dito. Aquela pessoa que você encontrou, aquela que você perdeu.
Olha rapaz!
Sim, o tempo que nós temos pode ser longo. Pode ser curto. Pode não ser.
Talvez eu já
tenha escrito, certamente já disse. Ninguém é livre neste mundo. Há grilhões
atados aos nossos pés. Não há quem possa livrar-se desta condição inexorável
que é a do tempo. Senão, vejamos:
Olhe o seu
relógio. Veja as horas. Melhor, veja os segundos. Veja aquele fino ponteiro se
movendo.
Tic, tac, tic, tac, tic, tac.
Respire.
De novo.
Respire mais
uma vez.
Olhe agora.
Pronto. Tente
voltar. Volte ao segundo anterior, ao minuto anterior. Volte ao café da manhã.
Volte ao beijo de despedida. Volte ao primeiro dia de aula. Volte ao topo do
pódio. Volte no tempo.
Não dá. Não
deu. Foi.
O tempo nos
aprisiona em uma única direção. Em frente e sempre. E passa, e rápido. Nossa
liberdade, portanto, se resume no espaço, pura geografia. Podemos ir e vir
livremente, exceto no tempo. Mais, do que isso, ainda somos livres para pensar
e fazer. Sim, podemos pensar e fazer. Podemos mudar o que pensamos. Podemos
mudar o fazemos. Mas, o tempo em que foi feito, já foi.
Mais do que isso,
e além disso. Não quero ultrapassar os limites da fé. Aliás, não quero
desrespeitar qualquer fé. Acreditar naquilo que não se vê é um privilégio. Mas,
por via das dúvidas, prefiro considerar que essa vida que temos é a única
chance. Se é assim, se não tem ensaio, se não tem rascunho, essa vida tem que
ser extraordinária!
Bem, a
respeito da tragédia, e de tudo isso, eu ainda tenho outras reflexões. Uma
delas é a respeito da solidariedade demonstrada em todas as partes do mundo,
tanto na esfera desportiva, quanto nas mais comuns. Vi fotos da Torrei Eifel em verde, da Orlando
Eye, do Obelisco em Buenos Aires. Vejo
demonstrações de clubes e federações cedendo jogadores, ideias de ajuda,
auxílio. Iniciativas emocionantes. É incrível como o esporte faz convergir
forças e sensações. Há um sentimento coletivo de consternação, de lamento, que
não vemos em outros cenários. Ouvi, por
exemplo, torcedores da Chapecoense que ficarão acampados no estádio aguardando
até a chegada dos corpos, para uma última homenagem, e acho isso fantástico.
Acho de uma sensibilidade extraordinária.
Mas, olha, não
quero minimizar a tragédia. Ela é, por si, uma tragédia. E jamais teria a
presunção de desconsiderar a dor de alguém. Mas, quantas vigílias estaríamos dispostos
a fazer por quem ainda está aqui conosco? Por quem e para quem ainda está
precisando de nossa ajuda? Aliás, quantas outras tragédias vivemos diariamente?
Terrorismo. Refugiados da Síria. Mortes no trânsito (inúmeras vezes maior que
em acidentes aéreos). Guerra de traficantes. Insegurança e impunidade. Corrupção.
Incompetência. Negligência.
Por que não
conseguimos nos mobilizar desta forma diante destas tragédias sociais que nos
assolam diariamente? Por que relevamos e nos conformamos com tudo isso? Por
que, muitas vezes, nem mesmo somos capazes de superar nossas pequenas tragédias
pessoais? Por que nos comovemos com tudo que está longe, e não fazemos nada
para transformar nossas pequenas derrotas diárias? Afinal, será que desperdiçar
a própria vida, fazendo aquilo que não se gosta, num lugar que não se quer, com
quem não se ama, não é, afinal, uma tragédia?
Por favor, não
me tenha por insensível. Pelo contrário. A tragédia nos dá oportunidades. Sobretudo
oportunidades de reflexão. Não há reflexões excludentes, nem homenagens
excludentes, ne solidariedade excludente. É importante chorar pela morte trágica
de pessoas que estão no nosso “radar afetivo”. Mas, sobretudo, é importante
chorar pela própria morte. Porque não tornar a vida extraordinária é não viver.
Mas, e aí, o
que torna uma vida extraordinária? Ou melhor, o torna a sua vida
extraordinária. Não sei. Realmente não sei. Ainda. Com a tragédia veio um
propósito de curto prazo, um pequeno e especial propósito: descobrir o que
torna (ou tornará) a minha vida extraordinária.
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