Sobre perdas

Escrever, pra mim, é terapêutico. Saibam disso. Meu compromisso é o de opinar, mas, sobretudo, refletir. Ser honesto com alguns sentimentos, não é recusar ou negar outros. No campo do "sentir", um sentimento não traz consigo necessariamente a renúncia de outro. 

Portanto, vou me permitir escrever sobre perdas, sobre luto, sobre seguir em frente e ainda assim, "sentir".

O luto é algo difícil de viver.

Há poucos anos perdi minha avó materna. Acredito que já tenha escrito sobre ela, ou sobre a relevância dela em nossas vidas. Ainda fico fragilizado pela saudade que sinto. Talvez não seja fragilidade, apenas emoção. Talvez, uma demonstração de carinho.

Na verdade nenhuma perda parece efetivamente bem planejada, ainda que esta perda seja inevitável. Dona Iolanda nos deixou aos 86 anos, longos e bem vividos. Nos últimos anos de vida o “sistema operacional” e o “hardware” já estavam comprometidos. Vínhamos nos preparando para uma inevitável despedida. Ela veio, e trouxe descanso. Um merecido descanso. Ficamos tristes. Contudo, conformados.

Por outro lado, há quem tenha perdas muito mais traumáticas, sem aviso prévio, sem preparação. Deixar a vida na juventude, ou ainda no auge da maturidade, parece sempre algo antinatural, parece algo muito mais dolorido. Há quem negue. Há quem se revolte. Todos sofrem. Choro. Medo. Impotência. Tudo junto.

Às vezes, a vida parece não ser justa. As pessoas nos deixam, sem que tenhamos tido opção de segurá-las conosco. Vão-se. Deixam a saudade. Como prever o acidente? Como prever a freada brusca, ou a falta dela? O semáforo falhou. Fatalidade? Dois instantes atrás, ou, um instante à frente, e ainda estaríamos juntos, ainda faríamos nossos planos, ainda realizaríamos nossos sonhos.
Mas, e se for uma doença? Doença corrosiva, silenciosamente alastrada, cegando olhos e sentidos. Tumores espalhados, lentos e letais. Imperceptíveis. Talvez pior, diagnóstico que negamos, recusamos. Confiança fatal na imortalidade.

Como num sopro, num instante, simplesmente se foi. Justamente ali, naquele lugar, naquela cadeira, naquele lado da cama, o que resta é a memória, a lembrança a saudade. “Com que direito foste arrancado de mim?” Perda estúpida. Odeio. Odeio quem tirou de mim parte dos meus sonhos, dos meus projetos, da minha vida. Odeio quem te levou daqui!

Luto incurável! Incurável porque ainda estás por aqui, ainda te vejo. Não, não apenas nos meus sonhos e nas minhas memórias. Vejo-te nas esquinas, nas ruas, nas lojas. Vejo-te aqui a acolá, quiçá completando, agora, a vida de outro alguém. Foste embora, arrancou-se de mim, do meu seio, da minha vida. Perder alguém que se foi por si mesmo, luto insuperável. Luto incurável.

Uma doença silenciosa e corrosiva que te levou. Que me levou. Fico triste. Odeio que isto tenha acontecido. Mas, não somos imortais, e não percebemos os tumores entre nós. Maquiamos as lesões, as feridas.

Percebo que ainda vivo um luto. Ainda dói.

Sim, outra vida, outros amores (e dores), hão de surgir. Haverá dias que não me lembrarei de ti, haverá noites em que não sentirei tua falta. Haverá momentos em que não colocarei a perna sobre teu fantasma ao meu lado. Mas, sempre que acontecer, irei chorar.

Não há como voltar de onde estamos. Não há como ressuscitar. A perda fatal nos alcançou. Mas, não nego a perda. Não nego a saudade, não nego o pranto. Simplesmente sinto.

Quando penso na vó Iolanda, fico triste. Mas, quando penso nela, também fico grato! Perder alguém querido é uma dor menor do que ter vivido sem ter tido a experiência de estar ao seu lado.  Talvez, estas pessoas que nos deixaram, ou que as deixamos ir, mesmo ainda estando por aqui, foram, e provavelmente sempre sejam, partes de nós.

Enfim, ainda que haja dor, há de haver gratidão.

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