Desfibrilador
Quando éramos crianças, costumávamos passar nossos verões na
casa de praia dos meus avós. Uma casa simples de madeira, construída com muito
esforço por uma taxista e uma enfermeira, num pequeno balneário do Rio Grande
do Sul. A casa segue lá, e ainda, volta e meia, nos encontramos em um ou outro
final de semana para deitar na rede e jogar conversa fora numa roda de
chimarrão.
Naquela época, as casas não tinham muros ou cercas, as
portas da vizinhança estavam sempre abertas, e ninguém sabia ao certo quem era
filho de quem, porque a gurizada se misturava ora na casa de um, ora na casa de
outro. Fazíamos tudo em turma, por toda noite, até a meia-noite! As bicicletas
zuniam de lado a lado, por todo dia, e as fronteiras que tínhamos ao longo do
ano, protegidos pelas grades da cidade, eram expandidas até quase o infinito
para quem tinha oito, dez ou quatorze anos.
Eis que numa tarde qualquer, pedalávamos rumo a mais uma
aventura, e disputávamos sempre quem era o mais rápido, ou o mais arrojado em
pequenas manobras, beirando a imprudência. Lembro apenas de olhar nos olhos da
motorista antes de ser atingido pelo carro. Duas cambalhotas no ar e um pouso
forçado sobre o asfalto quente. Não parecia sentir dor até tentar ficar em pé e
minha perna não responder ao comando. Fiquei ali, estendido no chão vendo
aquela mulher aflita, preocupada com as consequências de ter atingido um
moleque no meio da rua.
Aquela balbúrdia, trânsito parado, rapidamente estava
recebendo curativos na maca de um pronto socorro local. Nada grave, algumas
escoriações. Por prudência, todos exames realizados.
O litoral gaúcho tem características muito peculiares. A água do mar é muito fria e violenta em alguns dias. A areia fina, torna a cor muito escura. Tomar banho por lá é sempre uma aventura muito perigosa.
Eu estava ali, pensando em como aquele acidente iria
atrapalhar meus planos para a sorveteria à noite, quando rompem com intensa
urgência a porta do ambulatório dois policiais salva-vidas, uma médica e mais
uma enfermeira, dando-me uma ordem definitiva: saia!
Pulei da maca, e dei espaço a um garoto da minha idade, desacordado.
Havia se afogado naquelas águas escuras. A sequência de procedimentos que se
sucederam a partir dali, estão até hoje detalhados na minha cabeça.
O rapaz foi deitado, um dos policiais levantou os pés da
maca e a manteve inclinada, escorando num pequeno banco. Duas ou três injeções
foram aplicadas de forma intravenosa no corpo inerte. A médica, introduziu uma
canopla longa pela garganta e começou a aspirar a água que estava –
aparentemente – nos pulmões. Outra enfermeira, tinha nas mãos uma máscara com
um balão na ponta, que sistematicamente colocava sobre a face do garoto,
bombeando intensamente. Mas, o mais impressionante, foi o outro policial que
praticamente subiu na maca, e pressionava o peito daquele moleque - que poderia
ser eu - fazendo com que o osso externo quase encontrasse a coluna. Ouvia a
médica falando “pode quebrar a costela”! Os comandos eram altos, claros e
definitivos. E seguia-se um esforço desesperado de toda a equipe para salvar
aquela vida.
Não consegui perceber quando ou como a notícia definitiva
foi dada. Apenas vi o salva-vidas descer da maca, o outro tirar o banco que
sustentava a inclinação, as enfermeiras começarem a guardar os materiais, e a
médica informar a uma assistente que tomava notas numa planilha: “Hora da
morte, 16h15”.
Não acreditava que aquele esforço, que aquela esperança
teria simplesmente se esvaído, e que ali, ao meu lado, testemunhava pela
primeira vez a morte. Não houve tempo suficiente para que aquele guri fosse
salvo.
O incrível na nossa vida é que nem sempre é a água do mar
que nos afoga, e nem sempre isso acontece num repente! Vamos nos mergulhando
numa rotina, em ressentimentos, em desesperança. Esquecemos de nossos
propósitos e nossos projetos, e deixamos simplesmente a maré, ou as ondas
escuras nos levarem de um lado a outro da vida, nos afogando aos poucos, e,
muitas vezes, não há mais tempo de sermos salvos.
Mais do que isso, na maioria das vezes, estamos nadando,
tentando sair de uma correnteza que apenas nos esgota, nos castiga. Nem sempre
temos quem nos salve.
Eu estava nadando,
imaginava que conseguiria chegar até à margem, e finalmente voltar a caminhar e
respirar. Como quem se afoga, não conseguia perceber que meu esforço, sozinho,
não era suficiente. No celular uma mensagem: “Quando puder falar, me
avisa que eu lhe telefono!”. Era a boia, que me resgataria.
Aquela voz, aquela voz ao telefone foi a primeira massagem
cardíaca que me traria de volta à vida. Não, não era apenas uma oportunidade de
trabalho, embora fosse. Era um desfibrilador mandando uma corrente elétrica para
meu coração voltar a bater. Reconhecia aquela voz sorrindo do outro lado.
Aquela voz, um pouco rouca, sotaque levemente carregado, dizia - sem falar - coisas
a respeito de uma vida nova. Não, repito, não era apenas trabalho, embora
fosse. São projetos pessoais, são esperanças e propósitos.
Diferente daquele moleque que eu vi morrer, eu
fui salvo em tempo. Não morreria pelo mar, outras coisas me afogariam. As vezes
precisamos de um desfibrilador para dar um choque em nosso coração, e nos
lembrarmos de que para viver, não basta estar vivo.

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