Despertador

Hoje acordei com vontade de escrever.


Faz alguns dias, talvez semanas, quiçá meses que o Opiniático não tem compartilhado suas opiniões e reflexões. Há momentos em que não se consegue opinar, e, infelizmente, menos ainda refletir. O turbilhão de compromissos, atividades, metas, resultados que a vida profissional nos exige se sobrepõe ao prazer de escrever, por exemplo.

Aí, fico aqui diante do papel digital em branco como um pintor que observa mais o entremeado das fibras do tecido da sua tela, do que a visão da obra que quer entregar. Porque é assim, de certa forma vamos esculpindo ao longo das palavras um resultado pretendido. E nem sempre está claro o que se pretende. Queria só escrever. E, para quem experimenta, sabe que há tanto tesão no ato de fazer amor quanto no orgasmo em si!... Especialmente quando se faz com a pessoa amada e se pode ver dentro dos olhos, na pulsação do peito, no arfar dos pulmões a fruição do momento, de cada momento, antes mesmo da entrega final.

E aí, é assim. Escrevo, volto, leio, ajusto, reposiciono palavras, troco palavras, a ordem, a sequência, tentando imaginar se de alguma forma isso pode ser interessante. Fico pensando nos poucos leitores que poderiam me prestigiar: será que qualquer um destes parágrafos pode provocar alguma alteração na linha vital do eletroencefalograma que existe mesmo sem ser medido?

Não importa. A felicidade, afinal é inútil. Escrever não precisaria ter utilidade, pode, e deveria bastar-se. Poucas coisas na vida atribuem-se uma finalidade em si mesma. E talvez a questão seja apenas esta, atribuir valor intrínseco aos atos simples da vida.

Então é isso, meu tempo acabou! Um despertador insistente, a agenda lembrando que é preciso voltar ao trabalho e lá atribuir um significado especial nele mesmo. A rotina, a resolução, a produção, a construção, o legar algo, precisam ser tão prazerosos quanto estar aqui reunindo esta porção de palavras que talvez para alguém possa até parecer sem sentido.

A quem quer que tenha lido, quando quer que tenha lido, obrigado por me permitir o compartilhar de alguns minutos inúteis, porque, quem sabe, eles podem ter bastado em si mesmos.

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