O frio

Eu era um jovem convidado numa casa rural nos campos de cima da serra, no interior do Rio Grande do Sul. Era julho, um inverno rigoroso. Tudo que se enxergava até o horizonte estava vestido de branco. Não era neve. Era geada. Um vento em particular, o Minuano, típico daquelas bandas, assoviava e cortava.

Dentro da casa, as paredes grossas, centenárias; a velha chaleira de ferro repousava no fogão a lenha, servindo para aquecer a água com que serviríamos o mate amargo, que atenuava o frio dolorido que subia pelos calcanhares, como que se percorresse cada osso.

Implacável. O frio era implacável.

Na sala, uma grande lareira retinha chamas insuficientes para aquecer o espaço, mesmo com janelas fechadas. Sobre a pele, desacostumada das agruras do campo ou do tempo, várias camadas: ceroula, camiseta, camisas, blusas, meias, calças, jaquetas, botas, e sobretudo um grosso pala!

Frio. Muito frio.

Outro dia, senti um frio bem menos intenso, suficiente para me fazer lembrar daquele dia perdido na memória. Estava indo para o aeroporto, bem agasalhado, aquecido no banco de trás de um Uber “confort”, circulando pelas ruas de São Paulo. Pelo vidro, aquelas pessoas, num frio intenso, sem fogões, sem o chimarrão quente, sem casacos. Apenas o cimento, o frio e o vento.

O frio implacável.

Lembrei-me que Jesus, ao se referir a pecadores, ao servo mau, aos vendilhões do templo, amaldiçoou-os dizendo que iriam para onde haveria trevas, tremor e ranger de dentes.

Lá, sob as marquises, sob os viadutos, nas ruas de São Paulo, nestes dias frios, há trevas, tremor e ranger de dentes.

Imagino este seja o próprio inferno descrito por Cristo.

Mas, confesso, não me parecem ser aqueles os pecadores que deveriam estar lá!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

43 dias - Curiosidade

26 dias - Determinação - do irmão (bem) mais velho

45 dias - Escolhas