O frio
Dentro da casa, as paredes grossas, centenárias; a velha
chaleira de ferro repousava no fogão a lenha, servindo para aquecer a água com
que serviríamos o mate amargo, que atenuava o frio dolorido que subia pelos calcanhares,
como que se percorresse cada osso.
Implacável. O frio era implacável.
Na sala, uma grande lareira retinha chamas insuficientes
para aquecer o espaço, mesmo com janelas fechadas. Sobre a pele, desacostumada
das agruras do campo ou do tempo, várias camadas: ceroula, camiseta, camisas, blusas,
meias, calças, jaquetas, botas, e sobretudo um grosso pala!
Frio. Muito frio.
Outro dia, senti um frio bem menos intenso, suficiente para
me fazer lembrar daquele dia perdido na memória. Estava indo para o aeroporto,
bem agasalhado, aquecido no banco de trás de um Uber “confort”, circulando
pelas ruas de São Paulo. Pelo vidro, aquelas pessoas, num frio intenso, sem
fogões, sem o chimarrão quente, sem casacos. Apenas o cimento, o frio e o vento.
O frio implacável.
Lembrei-me que Jesus, ao se referir a pecadores, ao servo mau, aos vendilhões
do templo, amaldiçoou-os dizendo que iriam para onde haveria trevas,
tremor e ranger de dentes.
Lá, sob as marquises, sob os viadutos, nas ruas de São
Paulo, nestes dias frios, há trevas, tremor e ranger de dentes.
Imagino este seja o próprio inferno descrito por Cristo.
Mas, confesso, não me parecem ser aqueles os pecadores que deveriam estar lá!

Tenho o mesmo sentimento!
ResponderExcluir