Reflexão de Páscoa

            


            Gosto de compartilhar reflexões na Páscoa. Especialmente na Páscoa. E hoje, não me faltam motivos.            

            Agradeço a paciência e a leitura de quem se propuser a isso.

Tragédias, individuais, familiares e coletivas não são inéditas, infelizmente, e talvez por isso nos passem despercebidas. Ao longo da história, relatos de atrocidades, crueldades, absolutamente irracionais, recheiam livros e tratados sem que se chegue a qualquer entendimento lógico de suas motivações. Escrevo em particular sobre a violência estúpida que houve ontem em Blumenau/SC. Parece não haver sentido.

            E talvez não haja.

            Exceto se, de verdade, nos colocarmos solidariamente no papel das vítimas e de suas famílias. Se conseguirmos sentir o peso silencioso da ausência que cada pai e cada mãe está suportando nesta manhã, quando a rotina de acordar e alimentar o filho, já será desnecessária. E não por uma memória remota da infância do filho, agora adulto, mas, pela violência aleatória da vida interrompida em segundos. Não haverá qualquer razão para o brutal, cruel e covarde assassinato das crianças se não formos capazes de sentir em nós mesmos a dor, o nó na garganta, a lágrima e o choro quando olharmos indefinidamente a pequena cama vazia e os brinquedos sem vida sobre ela.

            Voltarei pra casa nesta quinta-feira Santa, véspera da Paixão, e beijarei minha esposa, darei um longo e carinhoso abraço nas crianças e agradecerei a cada um pela oportunidade de estarem comigo.

Olho para os colegas se movimentando no trabalho, cada um com seus próprios desafios e superações, pessoais e profissionais, imaginando que nada do que possam enfrentar em suas vidas, se compara a perda brutal daquelas famílias. Não consigo imaginar dor ou perda maior.

            Depois de muito reflexão, e de duvidar até mesmo da fé, imagino que depois de um episódio como este, cada um de nós deveria olhar para as suas próprias dores, e se dar conta que talvez elas não doam tanto, que elas são superáveis, e que resolver e vencer cada um dos nossos pequenos desafios, é uma forma de honrar quem não teve, não tem e nunca terá a mesma oportunidade.

            Não desperdice sua vida, não desperdice seus amores, nem suas dores, nem seus desafios. Não gaste tempo reclamando da sorte, ou falta de sorte. Seja grato. De ontem até hoje, uma certeza: há sim um privilégio e uma bênção em estar vivo; há sim um privilégio e uma bênção em ter uma família; há sim um privilégio e uma bênção em ter um trabalho e lutar todos os dias para vencer desafios e ser uma pessoa e um profissional melhor.

            Seja grato, e faça a sua vida ser incrível. Nem que seja para honrar que não teve este mesmo privilégio.

            Desejo, antecipadamente, que a Páscoa seja um momento de reflexão, de ressurreição, de paz e esperança a todos.

            Abraço.

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