Dois pra lá, dois pra cá.


A festa estava cheia. Quando entrei, do outro lado do salão, no meio de tanta gente, ela me olhou. Nos olhos. E sorriu. Sorriu e baixou a cabeça, deixando os cabelos caírem-lhe no rosto, simulando timidez. Era um evento corporativo, estávamos celebrando os muitos desafios superados ao longo daquele ano. Como sempre, eventos da empresa, também fazem parte do trabalho.

Precisávamos circular, cumprimentar as pessoas, colegas em comum. Ela de um lado, eu de outro. Rastreávamos um ao outro. Percebia o olhar dela em mim, justamente porque não conseguia tirar os olhos dela também. Algumas fotos aqui, outras lá. Finalmente, uma nossa. Simulação de um encontro acidental, quando nos cruzamos no cenário adequado.

Finger foods”. Esse era o sistema do jantar. Ficamos próximos enquanto a cerimônia seguia seu protocolo. Trabalhamos juntos há muitos anos e sempre tivemos entre nós admiração e respeito. E confiança. Comentávamos e falávamos sobre tudo. E, como sempre, ela sorria. E o seu sorriso sempre me iluminava. A risada gostosa e o corpo arqueado. Era um bom sinal, me fazia acreditar que estarmos juntos a fazia feliz.

O padrão da festa seguia: discursos, sorteios, homenagens, e, finalmente, música. E dançamos. Juntos. Muito juntos. Sentia o calor do seu corpo, e parte das suas curvas entre minhas mãos e meus braços. Uma coreografia improvisada, e sincronizada, como se já tivéssemos feito antes. Dois pra lá, dois pra cá – cochichei ao seu ouvido.

“Me conduza”, ela respondeu. Não sei dançar, mas ela se entregou. Dois pra lá, dois pra cá. Solta, gira, sob meu braço, volta, seguro novamente, a inclino, segurando na cintura.

Uma sandália transparente. Um salto muito alto, e brilhante. Literalmente. O salto tinha uma iluminação da cor do vestido: vermelho! Sim, ela desfila, ela é única, é linda, e sempre causa uma espécie de apneia coletiva quando chega. Onde quer que seja. Ainda hoje, ela me faz perder o fôlego.

Um susto. Ela girou, o salto, a sandália, o piso molhado, uma escorregada. Ela iria ao chão! Eu estava perto o bastante para alcançar-lhe pelas ilhargas, segurar-lhe pela cintura, e lhe suspender no ar antes que ela caísse. Aos que olhavam, apenas um passo mais ousado, como se deliberadamente eu a tivesse tirado do chão.

Foi a primeira vez que fiz isso. Tirei o amor da minha vida do chão!

A partir daquele momento, as pessoas deixaram o salão, apenas a banda ficou. Um único canhão de luz nos iluminava. O gelo seco deixava o ambiente mais intimista. Levei a mão direita aos seus quadris, a mão esquerda à nuca, puxei seu corpo quente pra mim, olhamos nos olhos um do outro, e nos beijamos apaixonadamente.

Uma pena. Isso não aconteceu assim. Mas, poderia. Eu ainda não poderia ser dela, precisava tomar outra decisão antes.

Aquela noite acabou depois de dançarmos. Prometemos um ao outro que dançaríamos novamente, e que sentiríamos saudade. Muita!

Uma semana depois, eu voltei, só dela!

Tirei meu amor do chão pela segunda vez, e aquele beijo, finalmente, aconteceu! Seguimos dançando desde então. Agora, nossa pista preferida é a sala de casa, sozinhos, ou com as crianças. Não precisamos mais de saltos iluminados, embora ela continue usando lindos sapatos, fazendo suspender minha respiração muitas vezes, seja qual for o figurino. Hoje, podemos dançar de chinelos e pijama, e dançamos, ainda mais apaixonados, e sigo suspendendo seu corpo no ar, entre giros, e dois pra lá e dois pra cá.

No final da noite, não vou mais embora, apenas trocamos de “pista” e de dança!
                                                                                                             
Amo você @andreza.asilva.

Comentários

  1. Eu amo mais Garoto.. ah.. muito mais!!! Não vejo a hora de você me tirar do chão... isso é uma constante!

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