Café Gelado

Quando cruzávamos olhares elétricos, acreditando que aquilo seria o máximo que poderíamos ter, era impossível imaginar uma Coca-Cola com Café na minha mesa.

E perguntaram ao louco, quanto seria dois mais dois. O louco respondeu: “Quarta-feira!” Outro louco, que ouvia, adiantou-se e respondeu: “Não! Dois mais dois é igual a paralelepípedo!” O terceiro louco então respondeu: “Dois mais dois é igual a quatro, obviamente!” E acrescentou: “Quarta-feira, mais um paralelepípedo, é igual a quatro”!

Parece que Coca-Cola e Café juntos, e nossos olhares libidinosos de outrora, tem tanto a ver um com o outro quanto o somatório de quarta-feira com paralelepípedo: coisa de louco!

“Mais louco é quem me diz... e não é feliz...”

Na verdade, estou aqui pensando em como tornar mais doce o dolorido final de semana da minha esposa, depois de uma cirurgia bucomaxilofacial (ou maxilobucofacial). Ela me dizia pela manhã que sem bebidas quentes, sentirá mais falta de café.

Hoje, rodei algumas lojas de conveniência, padarias, até que encontrei a última lata na vitrine refrigerada. Achei, portanto: Coca-Cola com Café! Uma combinação improvável apenas para quem não dirigiu de Florianópolis à Porto Alegre, à noite, por meses seguidos, pela antiga BR 101, onde o pior companheiro de viagem era o sono. Naquele tempo, o jeito era parar num posto de gasolina qualquer, nas barbas da madrugada, pedir um café passado no coador, que estava lá desde as três da tarde, uma Coca KS, um grande copo com gelo e misturar numa proporção qualquer. O Marlboro era a rebeldia adicional que hoje dispenso.

Nada na nossa vida é em vão!

Café gelado, agora, temos! E vou levar para ela experimentar. Em nossa nova vida de casados, de aliança no dedo e certidão no cartório, há uma dimensão ainda mais intensa para o que eu sinto. Há no dia-a-dia, na conversa sobre as crianças, no acidente de trânsito, na dor de dente, nos altos e nos baixos, no lado mais prosaico da vida, uma entrega cúmplice de compartilhar o que se tem, e o que não se tem. Há mais do que entrega, do que compromisso. Há mais do que o calor da paixão – embora seja intenso. Há o que talvez alguém possa chamar de amor.

E há de haver Coca-Cola gelada, com café.

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