Indecifrável
Indecifráveis.
Em dias de rostos cobertos por
máscaras e cenas apocalípticas, os olhos são mais do que janelas d’alma. O olhar revela tudo que a obscuridade das
palavras tenta esconder.
Há quem transmita no apertar das
rugas o sorriso dos lábios; ou no franzir do cenho a preocupação; há quem baixe
as pálpebras de decepção e tristeza, ou erga o olhar brilhante de entusiasmo ou
alegria.
O bom mentiroso sabe que o olhar
lhe desmente. O blefe se entrega com o olhar. É no olhar que se reflete o gozo do
amante, ou a violência do algoz.
Sutil e delicado. Nem sempre!
Valho-me do Castrinho¹: “Deus! ó Deus, onde estás que não respondes?”
Vejo, ao andar pelas ruas frias
de inverno, olhos mortos, sem brilho e sem expressão. E quando não são eles, são
olhos do demônio que invade os corpos sem vida de quem foi vencido pela fome,
pela loucura, pela miséria, ou por um cachimbo imundo.
Mas, não é só o olhar dos
miseráveis que me tira dos braços outrora fortes de Morfeu. É a opacidade dos
olhos de quem ainda pode experimentar o sabor da vida, e não o faz talvez por
excesso, talvez por ignorância, talvez por um sofrimento escondido nas esquinas
sombrias da mente.
Como seria bom decifrar os olhos
e olhares.
Por vezes, através da neblina do
tempo, por instantes infinitos, tento decifrar o olhar que repousa perdido justamente
na imagem do espelho. O que me diz esse olhar tão familiar?
Indecifrável.
(1) Castro Alves (1847-1871) foi
um poeta brasileiro, representante da Terceira Geração Romântica no Brasil. O
Poeta dos Escravos expressou em suas poesias a indignação aos graves problemas
sociais de seu tempo. É patrono da cadeira n.º 7 da Academia Brasileira de
Letras.

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