Primeiro voo

Em algum momento estávamos deitados na cerâmica quente, num dia de verão, observando o céu. Talvez, a mangueira estivesse aberta, e a água refrescava um pouco o escaldante verão portoalegrense. Provavelmente algumas brincadeiras já tinham se esgotado, e nós também.  Eu era um guri, mas eles, quase bebês. Ali, sem qualquer compromisso, encontrávamos histórias inteiras nos desenhos que imaginávamos nas nuvens. Fazíamos apostas em qual se moveria mais rápido, e observávamos dragões, rostos, castelos e todos os tipos de formas que três crianças poderiam imaginar.

Eram tardes inteiras dedicadas à infância, que incluía a leitura diária, a redação, e os deveres. Os oito anos que nos separavam na idade não importavam na maioria do tempo, exceto quando eu era contrariado, e ser maior e mais forte - naquela época - fazia com que meus irmãos sofressem um pouco. infelizmente, foi por pouco tempo. Na “parede da memória” estes dias poderiam ocupar mais espaço.

Antes disso, lembro do cheiro da grama recém cortada, e do do querosene queimado, quando meu pai estacionava o DelRey, na cabeceira da pista do Aeroporto Salgado Filho, e ficávamos observando o pouso e decolagem dos aviões. Na época um sonho realizado por poucos. O passeio se completava, quando íamos até o terminal, e do terraço, conseguíamos observar o movimento das aeronaves e das pessoas ricas e elegantes que transitavam por ali. Uma espécie de mundo do qual só podíamos visitar.

Minha primeira viagem de avião foi aos 18 anos, e já foi em caráter profissional, paga por uma empresa em que passei a prestar serviços eventuais. Eu fiz questão de estar de terno e gravata. Queria fazer jus ao momento de estar em um mundo à parte, onde o mesmo avião, comportava área para fumantes, e cinzeiros nos braços das poltronas. Na Viação Aérea Riograndense, a extinta VARIG, os talheres no voo do meio dia eram de aço inoxidável, e mais pesados que todo o faqueiro que tínhamos em casa. Entre Porto Alegre e São Paulo, almoço completo, com direito a vinho branco. Ao sair da aeronave, esperei para o fim, e pedi – com algum constrangimento – uma foto na cabine de comando. Deveria ter guardado com mais cuidado, na época, consumia uma das “poses” do pequeno rolo de filme, e precisava ser revelada.

Sentei-me na poltrona à janela. Queria muito ver o mundo aqui de cima. Sim, estou escrevendo isso num voo de São Paulo à Florianópolis, cidades onde me divido entre trabalho e família. Havia alimentado muito o sonho de ver o mundo de cima. E passei a escolher sempre a janela. 

Não mais. Em algum momento nesta trajetória, passei a preferir o corredor, talvez porque as aeronaves ficaram mais apertadas, e minhas pernas exigiram mais espaço. Uma pena. 

Hoje, o avião se tornou uma rotina, às vezes, cansado, durmo durante as instruções de segurança. O serviço de bordo, cada vez mais escasso, é servido sem que eu perceba. Um fenômeno interessante, agora, durante a pandemia do Covid-19, é observar que as máscaras – obrigatórias neste momento – escondem as obturações e os sons das bocas escancaradas do sono inevitável. Observar os diferentes paramentos das pessoas se tornou até divertido.

Hoje, por acaso, marquei assento novamente na janela, uma rara oportunidade de observar o avião vencendo camada por camada todas as nuvens do céu nublado de São Paulo, e aqui em cima, revivi nosso momento deitado no terraço de casa. Comecei a descobrir desenhos nas nuvens. Só que agora, sobre as nuvens.

Em que momento o extraordinário se perde? Quando que deixamos de contemplar, de achar que o extraordinário é comum? 

A ingenuidade, a simplicidade, talvez não haja nada mais extraordinário!

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