Ausência em Ata
Hoje escrevo, mais uma vez, pela necessidade de aliviar a tensão. Às vezes mergulho tão fundo nas questões profissionais, nos problemas da empresa, resolvendo um a um, que só percebo o desgaste quando ele já está instalado. Durante muito tempo, convivi com a ideia de que problemas de trabalho não causam danos pessoais. Sempre achei exageradas as queixas de quem levava o trabalho para dentro de si. Hoje desconfio que essa crença não era lucidez — era defesa.
O trabalho nunca é neutro. Ele nasce de necessidades humanas e, ao ser executado, devolve impacto. Sempre há alguém do outro lado. Sempre há consequência. Quando se trabalha com pessoas, esse impacto se multiplica. Decisões atravessam histórias, silenciam expectativas, reforçam ou minam trajetórias. Mesmo quando não é essa a intenção.
Há anos meu ofício é liderar e gerenciar pessoas. E essa responsabilidade é maior do que eu gostaria de admitir. As pessoas não agem apenas por quem são, mas também em resposta à liderança que recebem. Acertos e erros se espalham. O ambiente molda comportamentos. Ignorar isso é confortável — e irresponsável.
Digo que meu objetivo é formar profissionais capazes de me substituir. Repito isso como um princípio.
Mas a verdade é menos elegante: preparo pessoas para seguirem sem mim, e ainda assim sofro quando elas vão. Não pela saída em si, mas pelo que ela denuncia — limites da minha influência, falhas da minha leitura, expectativas que não se cumpriram. Percebo que não é só a equipe que falha; às vezes é o modelo, às vezes sou eu.
Fracassar em metas dói. Mas o que pesa de verdade é falhar na formação. Não conseguir contribuir como imaginei. Não alcançar quem eu julgava alcançar. Perder alguém do grupo, ou desistir de alguém, é uma decisão profissional apenas na superfície. Por baixo, há frustração, desgaste e uma sensação incômoda de perda. Não da pessoa, exatamente — daquilo que eu acreditava estar construindo.
Fui ingênuo ao pensar que a pessoa diverge apenas do gerente. Na prática, a divergência raramente é tão limpa. O papel contamina a relação. A função ocupa espaço demais. E, quando isso acontece, não é possível sair ileso. Nem para quem lidera. Nem para quem é liderado.
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