Reencontrar-se
Depois dos “arrastões” de ontem, quando se reuniu a “Associação
dos Bandidos e Marginais de Porto Alegre”, que foram inocentemente acarinhados
pela Brigada Militar, encontrei um sujeito que há tempo não via. Antes de falar
desse reencontro, quem observou atentamente o que ocorreu na cidade, viu que
não houve nada de manifestação. Houve cenas de caos, de colapso do sistema, de
inversão de papéis. Nas portas dos
prédios, em algumas esquinas os próprios moradores se armaram com paus,
porretes, enfim, para proteger seu patrimônio e sua família. Vamos chegar a uma guerra civil sem causa?
Atenção, atenção! Sigo na campanha: manifestações à luz do
dia, nos finais de semana! Talvez, os movimentos voltem a ser legítimos.
Infelizmente, não consigo distinguir quem é quem nas sombras da noite.
Voltando ao sujeito que reencontrei. Ponte Que Partiu! Algo naquele rapaz me era
muito familiar. Ainda não sabia bem o
que. Devia ter entre dezesseis e
dezessete anos. Olhou pra mim, como se me conhecesse há muito tempo.
- “Cara, tu não é
médico?”
Mas, que pergunta. Desisti da medicina no dia em que me
inscrevi para o vestibular de Administração na UFRGS.
- “Como assim? Tu
sempre quis ser médico...”
Como ele sabia disso? Aí, me jogou esta:
- “Pelo visto tu parou
de jogar vôlei e também não fez Educação Física.”
Me falou aquilo com um ar meio decepcionado. Mais:
- “Pra tirar tudo ‘isto’
do chão, só com um guindaste.”
E começou a rir compulsivamente. Uma risada meio engraçada e
familiar. Parecia o Pateta, aquele
personagem do Disney.
Que piá abusado! De onde ele tinha saído? Eu sabia que ele estava me dizendo coisas que
poucas pessoas sabiam. Eu ainda não conseguia ver de onde vinha aquela
familiaridade.
- “Vem cá, tu casou
com aquela menina de cabelo ondulado do primeiro ano? Aquela linda de aparelho?”
Aí foi demais! Como que um guri, que acabei de conhecer, que
tem menos da metade da minha idade, poderia saber das relações que tive ou que
deixei de ter?
- “Rico, pelo menos
rico tu é!”
Que pergunta. Desde quando isso é importante? Quando olhei
mais de perto, bem de perto, no fundo do olho, vi que estava diante do espelho!
Queria poder me reencontrar quando tinha dezessete anos. Queria promover o encontro do “Modelo 95”, com
o “Modelo 2013”. Quantas coisas fantasiávamos, imaginávamos, pretendíamos, e
que hoje, com o passar do tempo, ficaram diferentes. Quantas opções existiam? Quantas
escolhas, de fato, tomamos? Parece-me, às vezes, que a vida vai caminhando meio
que numa sucessão de impulsos – nem sempre voluntários.
Mas, eu diria ao piá de outrora, que, ainda que diferentes,
as coisas deram certo! Não sou médico, mas cuido das pessoas, e isso me dá um
grande prazer! De fato não jogo mais tanto vôlei como fazia, mas, descobri
outros “esportes”. Casei com outra menina, linda também, que me aguenta e não briga comigo. Ah, quanto a ficar rico – bom,
estou me preparando pra isto (risos).
Visitar nossas lembranças, nossas memórias, é um passeio fantástico!
É uma forma de voltar a viver aquilo que ficou pra trás. Sobretudo, é uma forma
de percebermos a bênção que temos em estar tendo, todos os dias, novas
oportunidades. Todos os dias, podemos olhar em frente e escolher quem será o “Modelo
2020”.
Acho que descobri uma forma de me reencontrar, mesmo que sem
máquinas de viagem no tempo. Basta lembrar.
Aliás, como serão as novas versões, os novos modelos de nós
mesmos?
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