Temores

Há quase cinco séculos Thomas Hobbes, filósofo inglês, um dos chamados “contratualistas”, declarou que “o homem é o lobo do homem”. Argumentou que o ser humano, em seu estado natural, vive com medo de seus semelhantes, de seus pares. Desta forma, para viver em paz, entregamos parte de nossa liberdade, ao Estado para que ele possa nos garantir a segurança mínima para não vivermos com medo. Hobbes chama o Estado de “Leviatã”, título de sua principal obra, fazendo referência ao monstro bíblico.

O Estado, portanto, seria forte porque teria a seu serviço, parte da credibilidade, da fé, e do poder individual de cada um dos cidadãos que está sob sua tutela.  Desta forma as ameaças seriam contornadas, dissipadas, diminuídas, frente à imensa força do Leviatã. O país, fortalecido com instituições sérias e comprometidas, e forças de segurança, garantidoras da “paz social”, trariam certo conforto e serenidade aos seus cidadãos.

Cabe o parêntese para mencionar que o Brasil tem enfraquecido suas instituições, especialmente as de segurança, sejam as polícias civis e militares, quanto às próprias forças armadas, que, em uma situação de crise – interna ou externa – pouco poderão fazer, ou se fizerem, podem causar um estrago desproporcional.

Continuo. Eis que me parece haver um desejo latente de re-tomada daquela parcela entregue ao Estado de volta para cada indivíduo.  Há, um esforço incompreensível (ainda) no sentido aparente de se retornar a um momento anterior à civilização, anterior a ideia de governo e de bem comum, ou bem da maioria.

Não tenho convicção alguma que os manifestantes estejam realmente preocupados com o bem da maioria. Tampouco, tenho convicção que os “pactos” propostos pela presidente Dilma sejam os remédios adequados. Por outro lado, tenho a plena convicção que precisamos de mudanças, e mais, que muitas das bandeiras desfraldadas nos últimos dias são legítimas e honradas. Ocorre que não há protestos pacíficos no Brasil, e a manutenção da paz, da tranquilidade, e do usufruto dos direitos fundamentais de cada um, precisam ser respeitados.

Vejamos.  Em todos os protestos havidos no Brasil, salvo exceções especialíssimas, o final resumiu-se em quebra-quebra, vandalismos, furtos, saques, depredações, incêndios, confrontos. Ainda, quando não tenha havido combate, houve o confronto, houve o medo. Se há medo, não há paz. Dizem que foram aos protestos trezentas mil pessoas no Rio de Janeiro, oitenta mil em São Paulo, trinta mil em Porto Alegre, enfim, talvez um milhão de pessoas tenha tomado as ruas das capitais brasileiras. Nestes mesmos dias, houve outras cento e oitenta e nove milhões de pessoas sitiadas em suas casas, em suas empresas, amedrontadas, aterrorizadas questionando onde aquela onda poderia “respingar”.  Notem que os protestos foram feitos por menos de 1% (um por cento) da população brasileira.

Será que esta parcela de “facebookers” nos representa? Talvez não. Mas, ainda assim, defendo com a mesma paixão muitas das bandeiras empunhadas nos protestos. Ora, que paradoxo. Sinto-me aprisionado pelo medo da massa ensandecida, mas, defendo suas causas. Penso que as manifestações representam um enorme risco à sociedade, ao mundo civilizado, mas, legitimo seus propósitos. Simples.  Como sempre, não é o QUÊ está se defendendo, é o COMO!

Alguns dirão que não haveria outra forma, outro caminho. Talvez. Por outro lado, percorrer as vias instituídas e constitucionais para propor e realizar mudanças dá um trabalho muito maior do que mobilizar-se confortavelmente, a partir de laptops, ipads, e smartphones, e numa noite qualquer “curtir” um tumulto à noite.  Candidatar-se, eleger-se, e propor mudanças políticas – de fato – dá muito trabalho.

Puxa, mas eu sou favorável às manifestações, e creio que faça parte da democracia.  Creio que o país careça de manifestações. Pessoalmente estive dentre os “cara pintadas”, no “fora Collor”. Mas, o custo dos protestos aumento muito, a violência aumentou, e as instituições enfraqueceram – demais!

Sou um defensor dos protestos sob o sol matinal de domingo, com rostos expostos, e cartazes refletindo na manhã! Defendo protestos no Parque Marinha, na Redenção, onde todos possam participar, pais e filhos – e avós. Defendo protestos que garantam a todos – inclusive aos eventuais conformados – o direito de ir e vir tranquilamente, quando bem entenderem, e mais, cheguem ao seu trabalho com as coisas exatamente no lugar onde deixaram!

Talvez não estejamos nos dando conta, mas, os protestos estão levantando questões muito mais perigosas do que a corrupção criminosa, do que o custo abusivo, do que uma pequena pauta de reivindicações.  Colocou-se o governo, e a sociedade à beira do pânico, do temor. Embora este seja um feito histórico precisa ser administrado com prudência. Um governo em pânico, desesperado, assustado, provavelmente não tomará as melhores decisões. 

Surge, portanto um temor ainda maior do que o das ameaças do vandalismo – surge o temor da reação do governo.  Só o fato de se propor uma nova “constituição”, causa arrepios.  Cláusulas pétreas podem ser flexibilizadas, garantias individuais podem ser revistas, e novos e pesados tributos podem ser criados. Cuidado!  Podemos estar o grande Leviatã. O monstro bíblico, que parece adormecido poderá erguer-se com força ainda maior e nos devolver a um tempo em que nenhum de nós gostaria de voltar.


Sigo desconfiado. Mais uma vez, o assunto não se encerra. Há muitas perguntas sem resposta. Sigo perguntando.

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