Pescaria e Temporal
Lá no horizonte o céu azul começava a ter a cor e o peso do
chumbo. O vento zunia, e levantava a areia fina que machucava as canelas.
Nossos pés molhados nas ondas que lambiam a praia, e nossa insistência e ficar
ali, observando os raios e relâmpagos que cortavam o céu, e eletrificavam o mar
infinito.
E a chuva chegou! Forte. As gotas pareciam pregos que
machucavam a pele exposta. "Vamos embora!" O trovão parecia bem perto agora. Dava
medo, mas, não desistimos. A chuva ficou mais forte, exatamente quando a ponta
da vara tremeu. Era grande. O peixe que havia mordido o anzol era grande e
bravo. Não poderíamos deixar escapar.
E o vento aumentou. E a chuva também.
Não havia onde nos esconder, corríamos com a vara de pesca,
e a linha sendo enrolada ao mesmo tempo. “Para a guarita vazia do salva-vidas!”
O único lugar que poderíamos nos abrigar era uma guarida de madeira, sobre
estacas, com um metro quadrado, onde só cabíamos meu pai e eu. De lá, podíamos continuar
puxando o peixe para fora da água.
Raios e trovões insistentes. Mais fortes, mais claros, mais
chuva, mais vento! A guarita balançava à quatro metros de altura. Medo de cair,
medo de perder o abrigo. Queríamos pescar! E vinha vindo na ponta da linha um
peixe grande, sufocado fora da água, se debatendo, querendo nadar, querendo fugir!
Havíamos fisgado!
Puxamos o peixe para dentro da guarita. Olhávamos pra ele,
como o céu de chumbo olhava pra nós, estávamos ali, tão presos pela chuva
forte, quanto o peixe estava preso pelo nosso anzol. Mas, ele estava morrendo.
Nós, ainda poderíamos fugir.
Ele parecia respirar. Peixes não respiram. Não lembro se
sabia disso na época. Agora, a euforia da conquista pelo peixe fisgado, se
misturava com a sensação ruim de vê-lo morrer. "Frito, envolto em farinha de
trigo. Crocante." Era assim que meu pai já descrevia o jantar que viria.
Uma rajada de vento balançou de novo a guarita. O peixe já
estava no fundo do balde que levamos para a praia. “Vamos embora, isso vai cair!”
E iria cair mesmo. Descemos em escalada até o chão, a chuva doía. Olhava no
fundo do balde o peixe parecia implorar. A maré subiu.
Cheguei primeiro na areia. Olhei para o meu pai descendo
devagar por cada um dos degraus de madeira. O balde com o peixe estava comigo.
E virei o balde na água do mar. Não seria naquele dia que
teríamos a fritada, não seria naquele dia que eu terminaria uma pescaria, não
seria naquele dia que aquele peixe morreria.
Meu pai sempre achou que derrubei o balde por descuido, ou
pela chuva forte, ou pelo vendo. Na verdade, fui cúmplice de fuga de um peixe
fugitivo, que voltou ao mar. E nós? Fugimos da chuva forte, para um banho
quente, e bolinhos de chuva feitos pela vó. Quase sinto o gosto do açúcar, da
canela, e da sensação de ter salvo aquele peixe depois de tanto trabalho pra
pescar.
O céu de chumbo, o temporal, a perda da pescaria, a dor das
gotas grossas de chuva, do vento forte. Às vezes, é só depois de uma tempestade
que coisas boas e doces surgem em nossa vida. E ficam pra sempre!

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