O mesmo ar

Tenho tentado manter a disciplina e seguir exercitando o hábito de escrever.  Confesso que não chega a ser grande esforço, já que eu gosto de escrever.  Na verdade a escrita me permite pensar, opinar, refletir e registrar.  Sou um amante dos pensamentos. E pensamentos são revelados em palavras, não tem jeito.

Bueno. Dito isto, e depois de folhear o jornal, e do meu cinzento post de ontem, penso que realmente eu poderia ter morrido.  Não no acidente que comentei ontem. Mas, numa situação como da boate Kiss.

Não, provavelmente eu não estaria na boate. Nos últimos 10 (dez) anos, pelo menos, os programas da minha esposa e meus, não tem, na maioria das vezes, incluído boates. Por outro lado, sempre entrei em brigas para ajudar alguém.  Sempre me dispus a me interpor em pseudo-proteção aos meus irmãos, ou amigos. Dificilmente, ao observar as chamas, ou a fumaça, eu deixaria de tentar ajudar, de tentar quebrar as paredes.

Li que boa parte do pessoal que ajudou, acabou intoxicado. Vários morreram. Alguns haviam conseguido sair, e voltaram (ou permaneceram) para ajudar. Teriam sido também vítimas? Talvez. Mas, conseguiriam viver sem ter ajudado?

Claro que ser "profeta do dia seguinte" é fácil.  Imaginar o que se faria, sem de fato ter feito, também. Mas, ali, ao lado, diante de tanto horror, de tanta morte, alguém poderia simplesmente ignorar o outro, e seguir adiante? Não sei ao certo, mas parece-me que uma pessoa assim já estaria morta.

Penso que viver sem contribuir, sem ajudar, sem tentar transformar a vida das pessoas, é o mesmo que não ter vivido. Salvar, ou tentar salvar alguém, é como viver, é como fazer com que tudo tenha valido, ou tenha valia.  Penso que não precise tanto. Penso que não precisemos de incêndios.  Basta talvez estender a mão. Em casa. Na família. No trabalho. Aqui, na empresa, há incêndios diários. Ajuda para derrubar paredes?  Para liberar a fumaça. Nem sempre. Não são raras as vezes, em que se fecham as portas, para que a incineração seja completa.

Talvez, seja o momento de realmente viver a solidariedade real, aquela de estar, de fato, no problema do outro, na pele do outro, respirando o mesmo ar, a mesma fumaça, a mesma dor. Quem sabe assim, todos, possamos, de fato, voltar à vida!


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