Acabaram!

Do ponto de vista evolucionista, o objetivo de uma espécie é perpetuar-se. Conseguir multiplicar-se na maior escala possível é o ápice da evolução. Em termos de animais complexos, nenhuma espécie é tão bem sucedida quanto as galinhas. Sim, estima-se que no mundo haja pelo menos 25 bilhões de galinhas. Enquanto espécie, absolutamente bem sucedidas. Enquanto indivíduos, as galinhas são miseráveis. O sapiens transformou a galinha em mero fornecedor de proteína barata. Longe de mim me tornar um defensor ou um ativista dos galináceos, pelo contrário, minha preocupação é com os ovos.

Veja, se é verdade que são 25 bilhões de galinhas no mundo, quantos ovos não-fecundados hão de haver? Aqueles ovos mal passados, como “olhos” amarelos aguardando ansiosos para serem estourados numa fatia quente de pão. Quantos haveriam? Quantos ovos haveriam para nos permitir a omelete salvadora num dia de geladeira vazia? Zilhões! Ovos sempre me pareceram de produção infinita. Ovos jamais irão acabar.

Acabaram!

Em um dos principais hipermercados, de São Paulo, a principal hipermetrópole do Brasil, ontem, acabaram-se os ovos!

Na poltrona da sala, em meio a uma maratona de Walking Dead, quando Rick desafiava zumbis e tentava encontrar comida, ovos, não havia mais. Pensava comigo, quando acabarem os ovos, talvez estaremos em um cenário da Guerra Mundial Z.

Não estamos. Os ovos acabaram!

Isolamento. Quarentena. Toque de recolher. Polícia restringindo o ir e vir. Aeroportos, trens e ônibus fechados. Tudo bem, até aqui.

Mas, não ter mais ovos?



Para contextualizar, o dia é 20 de março de 2020. Estamos em uma pandemia mundial que se iniciou na China, se estendeu para Itália (atual epicentro da doença), e já temos 600 casos no Brasil, com 6 mortes. Trata-se de um vírus mutante, chamado Corona Vírus, que causa uma doença chamada COVID-19, que é uma gripe. Há tratamento. Contudo o vírus é muito resistente e altamente contagioso, trazendo vítimas fatais especialmente em idosos e pessoas mais vulneráveis. A preocupação é restringir os infectados ao máximo para não sobrecarregar o já frágil sistema de saúde. As pessoas estão estocando alimentos para isolarem-se em suas casas, por isso o desabastecimento iminente. As autoridades já fecharam comércio, serviços, transportes, eventos, fronteiras, praias, shoppings, parques, etc. O cenário é cinematográfico, de fato. A economia chinesa, por exemplo, despencou quase 30%. O mundo parou, e segue parando. Provavelmente, os efeitos econômicos, na produção, nos empregos, no moral, na psiquê das pessoas, será mais letal que o próprio vírus. Se alguém ler isso daqui a 5 ou 10 anos, talvez sofra os efeitos dessa crise histórica. Por outro lado, quem sabe, justamente aqui, neste ponto de inflexão, possamos transformar a humanidade enquanto espécie? Pra melhor.

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