Neandertais
“Semelhantes demais
para não serem notados; diferentes demais para serem tolerados”. A frase
está no livro Sapiens: Uma breve história
da humanidade, de Yuval Harari. A sentença refere-se a um fato sobre o qual
jamais havia pensado, que é o de que o Homo
Sapiens, é o único “Homo” remanescente. Somos a única espécie que
sobreviveu deste gênero “homo”. Em
seu comentário evolucionista, conclui o autor, “se o sapiens moderno tem dificuldade em aceitar a cor da pele, ou a
religião diferentes, o que se diria de uma espécie inteira diferente, há
milhares de anos atrás”. Ou seja, em algum ponto da história dizimamos
todos os outros “homos” potencialmente concorrentes.
Note-se que vários outros gêneros mantém diversas espécies:
há muitas espécies do gênero “baleia”; muitas espécies do gênero “peixe”;
muitos felinos, caninos, etc. Apenas um humano. O “sapiens”, ou o “homem sábio”.
O livro que apanhei despretensiosamente neste final de
semana tem me colocado em uma série de reflexões bem interessantes, embora,
ainda não tenha conseguido desfolhar todas as seiscentas páginas da versão
pocket, que parecem mais interessantes a cada capítulo.
Nesta manhã, estava enfrentando o trânsito caótico das
manhãs do Recife. O bairro em que moro embora seja bastante residencial, parece
passagem de um lado para o outro da cidade, e as ruas cálidas do final de
semana se tornam um mar de carros, motos, bicicletas e pedestres. Estava
ingressando em uma via de trânsito rápido, onde não há semáforo no cruzamento,
portanto, a tarefa era relativamente árdua. Ingressaria na via, de mão única, à
esquerda. Tomei o cuidado de baixar o vidro do carona (eu estava sozinho no
carro) e tentava gesticular pedindo alguma clemência dos meus colegas
motoristas para que pudessem gentilmente permitir meu ingresso. Passaram-se um,
dois, sete carros, e nada. O tráfego era tão intenso que a rua simplesmente
travou, e todos ficaram imobilizados, em todas as vias. Isso permitiu me aproximar
com segurança e seguir o fluxo.
Enquanto eu aguardava minha vez, o motorista que vinha atrás
de mim, entrou num posto de combustíveis que fica na esquina deste mesmo
cruzamento, atravessou por entre as bombas e pedestres, e forçou sua entrada na
mesma via que eu, alguns metros à frente, sem qualquer cerimônia. Provavelmente
ele tenha entendido que o seu tempo, ou o seu direito fosse mais importante que
o meu, ou das centenas de outros motorista que precisariam aguardar sua vez –
pacientemente ou não – para entrar na via.
Outro dia, mais uma vez, estava num engarrafamento
aparentemente inexplicável quando retornava pra casa. Em determinado trecho, a
avenida pela qual sou obrigado a trafegar passa por sob uma elevada, que
sustenta uma das maiores vias arteriais da cidade. Adjacente a ela, foi
construída uma alça de acesso à avenida que me leva ao meu apartamento, de
maneira que deveria haver uma convergência de fluxos. Para isso, os
ingressantes na via precisam, obrigatoriamente, seguir o fluxo à direita; há
boa sinalização horizontal, inclusive com obstáculos físicos. Quando cheguei neste ponto fiquei estupefato
ao perceber que vários motoristas, ignoravam qualquer sinalização – ou bom
senso – e atravessavam a avenida em direção a outro posto de combustível que
simplesmente estava no lado oposto, por cima da sinalização, causando todos os
vinte e sete minutos de engarrafamento em que eu, e todos os demais motoristas
estávamos presos. O mais interessante é que nenhum deles abasteceria seus
carros, senão, utilizariam o posto para acessar a rua do outro lado, realizando
um retorno totalmente proibido. Provavelmente estes motoristas tenham também
entendido que o seu tempo e direito eram mais importantes.
Nem bem passei por este trecho, e um sujeito, pela janela do
carro, simplesmente descarta o papel de um bombom. No chão, na rua. Certamente,
ele deva ter entendido que tinha o direito de sujar a cidade, independente do
meu direito de viver em ruas limpas, sem alagamentos no período de chuvas.
Posturas corruptas, que revelam ignorância (ou maldade). Não
sei ao certo. Destas condutas, acredito, surgem a corrupção, a fraude, o furto.
Tudo uma questão de oportunidade.
Afinal, a despeito dos estudos de Yuval Harari, tenho dúvidas se a
espécie sobrevivente foi o “Sapiens” ou o “Neandertal”.

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