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Mostrando postagens de janeiro, 2020

Que se fodam!

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Minha avó tinha uma caderneta preta, com classificação alfabética, de nomes e telefones anotados. Lá, cada nome tinha observações precisas, como da Lourdes, “do Carlinhos”; para que não fosse confundida com a outra Lourdes, a “do José”, por exemplo. Volta e meia, quando a caderneta já estava muito velha, ou tinham muitos telefones a serem atualizados – alguém de letra bonita – precisava anotar tudo de novo, em uma nova. Tarefa árdua, mas muito reconhecida. Poderia valer um bolo de chocolate, ou uma caneca de café e bolachas Maria. Naquela época o aparelho telefônico era conectado por um fio, pesava uns 3kg, e era fixo; ele era dividido em duas partes, o “fone” que ia na orelha e na boca, e a base, que tinha que ficar em uma mesa. Sobre a base, tinha um disco um pouco maior do que a palma de uma mão, com números distribuídos em volta, e era preciso girá-los na medida certa, para que fosse feita uma ligação. Até hoje, amigos da minha geração podem falar “discar”, como sinônimo de...

Lençol Azul (não tem como ser outro título)

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Gossypium é gênero. Há várias espécies: arboreum, barbadense, herbaceum . Diversas. Todas dizem respeito ao algodoeiro, uma planta arbustiva, que produz o algodão. Sim, aquela fibra branca que cresce justamente em volta da semente do algodoeiro. O algodão, dizem, desde o final da última era glacial é utilizado na produção de tecidos. Da colheita até a máquina de fiar, ou de fazer fios, o processo passa por várias etapas. Descaroçamento, beneficiamento, separação. Até que se tornem fios torcidos de diversas espessuras, inclusive milimétricos. Daí, o caminho é a tecelagem, onde os teares trançam os fios em diversas gramaturas, fios justapostos, horizontais e verticais, em milhares de tramas mais ou menos apertadas. Com mais ou menos fios por centímetro quadrado. Em algum momento, seja diretamente nos fios, seja no tecido, há o processo de tingimento, quando se deseja uma cor diversa do branco. Eis que alguém desejou tingir um tecido muito especial e delicado em azul claro....

Oração

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Hoje pensei em escrever uma oração, e conversar seriamente com Deus. Ficou assim... Obrigado Senhor, Por tudo de bom que recebemos, em sua infinita generosidade! Por termos um trabalho digno, que nos traz sustento e nos permite sonhar; Pela saúde, pelo corpo e mente perfeitos, e pela permissão de estarmos aqui; Pela família que estou construindo e pela família que me construiu; Finalmente, pelo amor na minha vida, e por eu poder ser o amor na vida do meu Amor. Perdão Senhor, Pelas vezes em que me falta a fé; Pelas vezes em que cometi alguma injustiça; Pelas vezes em que fui grosseiro, ou rude; Pelas vezes em que não consegui me colocar no lugar do outro; Enfim, perdão pelas minhas inúmeras fragilidades. Te peço Senhor, Sabedoria e força para enfrentar os desafios do dia; Saúde para as nossas famílias, pois sei que a vida é um presente Teu; Assim como vestes os lírios do campo que não tecem nem fiam, e dá o que comer às aves do céu, que não semeia...

Ovos Quebrados

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Um dia quis fazer uma omelete. Gostava tanto dos ovos, que não lhes queria quebrar. Sem quebrá-los, não poderia desfrutar da fritada. Dúvida cruel. Conservar os ovos perfeitamente íntegros, lindos; ou deliciar-me com a textura aveludada da omelete deslizando na boca. Toda escolha traz consigo pelo menos uma renúncia. Ou muitas. Preferindo a omelete, renuncia-se ao ovo. O inverso, verdadeiro. A escolha pode ser simples e óbvia. Escolher o bom, renunciando ao ruim. O bem, ao mal. O doce, ao azedo. Agora, quando a escolha é do tipo Beatles ou Rolling Stones; Gil ou Caetano; Castro Alves, ou Mário Quintana; Churrasco, ou Sushi. Florianópolis, ou... bem, Florianópolis não tem comparação. São escolhas entre duas coisas boas. Um fica, outro sai. Uma escolha. Uma renúncia. Agora, o pior de tudo, o que me deixa realmente incomodado, é quando temos que escolher entre duas coisas ruins. Corinthians ou Palmeiras. Abobrinha, ou dobradinha. Parece que neste caso só há renúncias...

Terapia do Amor

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Se é verdade que o amor é um sentimento sofisticado, e, portanto, complexo, também é verdade que posso ficar à vontade para ensaiar sobre o assunto de maneira absolutamente livre.   Afinal, o amor já foi cantado em prosa e verso. Poesia e música. O amor é estudado por quase todas as ciências, até mesmo pela matemática - que me ajude o Prof. Amadeu, eterno amante e apaixonado pela geometria analítica. Psicologia, psiquiatria, neurologia, ciências médicas que também debatem. Filosofia, pintura e quase todas artes, contemplam o amor. Sem falar nos apaixonados, nos desavisados de plantão que se propõe a ter uma experiência com o amor. Amar Verbo Intransitivo. O livro do Mário (de Andrade) era um dos que mais chamava minha atenção na biblioteca da minha mãe. Ainda assim, me faltava gramática para entender o propósito do autor, e coragem pra desfrutar da leitura. Um verbo intransitivo, aprendi depois, é aquele que não necessita de complemento para transmitir sua mensagem. Eu ...

O lobo do homem

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Tomas Hobbes, como escrevi outro dia, cunhou o termo “ O homem é o lobo do homem ”. Em sua articulação a respeito da formação do Contrato Social, Hobbes entende que o homem, em seu estado natural, vive em permanente medo, do outro homem, que para satisfazer seus “desejos e apetites” faria qualquer coisa. Penso que cabe outro sentido para a frase, outra forma de escrevê-la: “ O homem é o lobo do próprio homem ”. Nosso pior inimigo mora dentro de nós. Nossos demônios não vem das profundezas do inferno, mas, do fundo da alma. É lá, no silêncio dos nossos pensamentos que se dá a verdadeira guerra. É lá, dia a dia, dentro de nós, que escolhemos um dos inúmeros destinos que a vida nos oferece, a partir das escolhas que fazemos. É lá, onde se separam os homens dos meninos. É lá, numa noite escura, diante do lobo que habita em nós, que precisamos escolher quem viverá no dia seguinte! E o dia seguinte virá! E a mão acolhedora do amor se estenderá para lhe erguer do campo de ...

Medo?

Quem já "me leu" aqui sabe que escrevo em caráter terapêutico e meramente reflexivo, e eventualmente opinativo, sem maiores compromissos. Tenho me esforçado em ser simples, sem perder profundidade. Segue, portanto, mais uma dessas tentativas. “O medo é o sal da vida”. A frase é do paulista Paulo Gaudêncio, psicanalista, cuja palestra tive oportunidade de assistir há alguns anos. Ele mencionava que, sem o “medo”, a vida seria, digamos, apática. Em sua palestra, ele demonstrava como é justamente a avaliação e superação de medos que mantém a vitalidade das pessoas. Uma historinha de business  é a do peixe fresco. Em síntese, no Japão, as pessoas reclamavam que os peixes, pescados em alto mar, resfriados no gelo nos porões dos barcos, não tinham sabor de peixe fresco; resolveu-se adotar tanques, espécies de aquários, onde os peixes chegavam ainda vivos ao destino; ainda assim, o sabor não parecia ser o ideal; finalmente, decidiu-se incluir nos tanques, um tipo de tubar...

Compreensão

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Bonito. Inteligente. Honesto. Sexy. Competente. Único. Especial. Este é você. E muito mais. Tenho certeza! Sendo um homem, ou uma mulher. Ainda assim, há quem simplesmente não goste de você! Quem sabe, essa pessoa também possa ser bonita, inteligente, honesta, sexy, competente, única e especial. Ao menos ela se sente assim. E ainda assim, ela não gosta de você. Existem pessoas bonitas, inteligentes, honestas, sexys, competentes, únicas e especiais. E você não gosta delas, tenho certeza! Afinal, em alguns dias, você não está assim tão bonito; talvez, tenha cometido alguma estupidez; talvez, tenha colado numa prova, ou furado uma fila; pode ter havido o dia em que tenha preferido ficar sozinho; quem sabe, naquele dia, uma pequena mentira; naquela noite, não tenha estado assim tão sexy; talvez, em algum momento tenha errado no trabalho; talvez, em outro, tenha guardado o chocolate só para si; pode ser que em algum momento, a preguiça tenha prevalecido; talvez, ...

Ar Condicionado

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O inverno é muito rigoroso no Rio Grande do Sul, mas, o calor do verão é mais rigoroso ainda. Lembro do primeiro aparelho de ar condicionado que tivemos em casa. Não era comum naquela época. O ano deveria ser 1985. Para instalar aquela geringonça foi preciso abrir um enorme buraco na parede, construir alguma estrutura, e uns três homens para fixá-lo. Quando estava ligado a casa inteira vibrava, parecia movido à diesel. Ele foi instalado no quarto dos meus pais, que acabava funcionando como “sala-de-estar”, porque lá também estava a maior televisão da casa – que deveria ter apenas 24 polegadas e o tamanho de um fiat Uno - e mais tarde, onde ficava o vídeo cassete, um luxo que demorou a chegar. Naquela época, estes itens já nos colocariam numa faixa muito pequena da população, meus pais tinham curso superior, tínhamos carro, dois televisores, vídeo cassete, e claro, um ar condicionado. Na verdade, meus pais trabalhavam muito, três turnos. Nesta época, eram professores, então, tud...

Café da manhã

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Fazia mais ou menos dois anos que estávamos casados. E aquele dia foi como muitos outros dias comuns. Eu sei porque lembrei daquele dia hoje, mas isso fica para o final. Desde criança tenho hábito de acordar cedo. Não foi diferente. Eu gostava de acordar assim, com a luz ainda fraca do sol entrando por entre as frestas da persiana. Ela ainda dormia ao meu lado, a primavera no sul amanhece mais ou menos fria. Ela usava um pijama, talvez não fosse um pijama, uma camiseta, não sei. De toda forma, o tecido era como seda. Até hoje ainda gosto de perceber como os tecidos acariciam a sua pele, mesmo o lençol que lhe cobria parcialmente, ficava assim, como que protegendo e revelando ao mesmo tempo partes do corpo que eu ainda amo. Fiquei assim, alguns instantes velando seu sono tranquilo. O cabelo meio desgrenhado, a pele quente. Roubei-lhe um beijo – de leve – não queria acordá-la. O dia seria pesado, meu primeiro cliente estava marcado para 08h00. Sabia que teria um trânsito intenso ...

Conversas

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Falávamos sobre a relatividade do tempo. Aliás, falávamos sobre várias coisas. Nossos temas, nunca foram simples ou triviais. Gostávamos de falar sobre o coração, sobre nossas emoções, assuntos que envolviam tempo e o amor. Sobre conceitos difíceis de definir. Seria o amor um sentimento, uma escolha, uma atitude, uma conduta? O tempo é linear, um conceito, uma equação? Em outras oportunidades falávamos de trabalho. Quais seriam as melhores decisões, os melhores processos. Como confiar numa ou noutra pessoa. O quanto os valores corporativos da empresa estavam alinhados com os nossos, como poderíamos contribuir para que as coisas fossem melhores, as pessoas mais felizes e, por fim, nossa equipe – que era comum entre nós – fosse mais produtiva. Também falávamos sobre filhos. Os dela. Sou o pai perfeito, e como todos pais perfeitos, não tenho filhos. Falávamos sobre os nossos pais (e mães). Ela que perdeu a mãe tão jovem, e isso foi definitivo na sua vida. Eu que ainda tenh...

Experiência com Deus

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Hardware e Software. Termos de informática que definem basicamente a parte “física” de um computador, os equipamentos em si, e a parte “virtual”, ou os programas, aquilo que “recheia” os equipamentos. Um amigo da área diria que “hardware” é o que você chuta, e “software” é o que você xinga. Conosco, mais ou menos a mesma coisa. Corpo e mente. Os gregos falavam “ mens sana, corpore sano ”.   Mente sã, corpo são. É relativamente simples cuidar do hardware humano. Alimentação equilibrada, consumo de calorias proporcional ao gasto, atividades físicas regulares, check ups anuais, evitar o álcool e o tabagismo. Olhar para os dois lados antes de atravessar. Velocidade regulamentar da via. Talvez, duas ou três colheres de sorte. Por outro lado, a mente humana é algo realmente complexo.   E isso torna tudo difícil. Porque o corpo realiza aquilo que a mente comanda. E para tratar da mente, a psicologia e psiquiatria não cessam em realizar estudos e experimentos, buscando en...

Negação e Raiva

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A perda amorosa é uma das mais doloridas que se pode experimentar. Cada pessoa trabalha suas perdas de forma diferente. Trata-se de um luto. A psiquiatra suíça Elizabeth Kluber Ross, em seus estudos, demonstrou que o processo de luto passa por algumas fases, ou estágios, sendo que cada pessoa pode viver todos ou alguns, e por um tempo indeterminado em cada um deles. Recentemente saí de uma relação, a partir de uma decisão minha. Para efeito dessa reflexão, não vêm ao caso os meus motivos, pois envolvem expectativas, percepções, e outros sentimentos, inclusive um novo amor. O que pretendo abordar é a forma como está sendo possível, incrivelmente, perceber cada um dos estágios descritos por Ross. O primeiro é o da “Negação”. A pessoa que sofre a perda não acredita que perdeu. Mantém fotos, acredita em fantasias do tipo, “ele voltará”, “é uma fase”, “são outros problemas”. A pessoa simplesmente nega que a perda esteja efetivamente acontecendo, ou que tenha acontecido. Mais do ...

O amor é incondicional? (Versão Pocket)

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Acreditava que o amor exigia condições. Seria merecimento por cumprir requisitos (sem saber quais). “Um prêmio para virtuosos e não um alimento para os famintos”. Reconhecimento para INdeterminadas condutas e sem garantias. Estava errado. O amor é incondicional. É a incondicionalidade do amor que traz segurança e paz. Como ter paz se precisamos cumprir requisitos incertos para garantir reciprocidade? Será que disse o que ela gostaria? Será que isto fará ela me amar menos? De perto – dizem – somos feios e loucos. Como amar feios e loucos sem ser de forma incondicional? Para o amor não importam julgamentos, se estamos perto ou longe, viajando a trabalho, milhares de quilômetros, nem pessoas mais bonitas, inteligentes, ou interessantes. Ele se basta. A incondicionalidade pressupõe perdão! Se amamos, apesar dos erros, haverá espaço para a força restauradora do perdão. Não fosse assim, doentes ficariam desamparados, prisioneiros não teriam visitas, pessoas traídas não perdoa...

O amor é incondicional?

Segundo São Paulo, na famosa Carta aos Coríntios, “o Amor jamais desaparecerá!”.   É interessante como que quando pessoas que respeitamos fazem certas afirmações temos uma tendência grave de tratar como verdades absolutas, sem necessariamente refletir a respeito. Tenho pensado sobre a incondicionalidade do amor. Estabeleci, em determinado momento que o amor só aconteceria na medida de algumas condições, de alguma reciprocidade, afinal, não seria possível amar alguém de forma unilateral, ou amar sem ser correspondido, ou amar sem que o outro nos dê provas concretas do seu amor. Estava partindo de um pressuposto – agora vejo – equivocado de que o amor seria merecimento, e, sendo assim, teríamos que cumprir uma série de requisitos, que por vezes nem saberíamos quais, para que fôssemos merecedores do amor do outro. Ora, isso é angustiante! Neste caso o amor seria um prêmio para virtuosos, como diria o Papa Francisco, e não um alimento para os famintos. Pior, seria um prêm...