Que se fodam!
Minha avó tinha uma caderneta preta, com classificação
alfabética, de nomes e telefones anotados. Lá, cada nome tinha observações
precisas, como da Lourdes, “do Carlinhos”; para que não fosse confundida com a
outra Lourdes, a “do José”, por exemplo. Volta e meia, quando a caderneta já
estava muito velha, ou tinham muitos telefones a serem atualizados – alguém de
letra bonita – precisava anotar tudo de novo, em uma nova. Tarefa árdua, mas
muito reconhecida. Poderia valer um bolo de chocolate, ou uma caneca de café e
bolachas Maria.
Naquela época o aparelho telefônico era conectado por um
fio, pesava uns 3kg, e era fixo; ele era dividido em duas partes, o “fone” que
ia na orelha e na boca, e a base, que tinha que ficar em uma mesa. Sobre a
base, tinha um disco um pouco maior do que a palma de uma mão, com números
distribuídos em volta, e era preciso girá-los na medida certa, para que fosse
feita uma ligação. Até hoje, amigos da minha geração podem falar “discar”, como sinônimo de fazer uma ligação. Bem, para saber os números
telefônicos, apenas pela cadernetinha da minha avó.
- Lourdes, tudo bem?
Como é que tu tá? E o Carlinhos? Mesmo? Aqui também está tudo bem? Ah, tu sabe
como é, teimoso, não é? Sim, isso também. Não brinca! Separaram-se? Mas, já?
E por aí se ia minha avó na lembrança remota que eu tenho da
infância. Ela sentava ao lado do telefone, parece que sorteando um parente, ou
uma amiga para se atualizar dos assuntos, e ligava para simplesmente saber como
estavam.
Naquele tempo, quando não havia redes sociais, as relações
eram dos grupo da igreja, do trabalho, ou da escola; para saber das novidades,
ou você ligava, ou saberia ao acaso, circunstancialmente.
Pessoas e famílias abastadas, publicavam seus eventos nas
colunas sociais (ou no obituário) nos jornais, que na época eram impressos e
distribuídos em casa, numa logística impensável hoje em dia. Em tempo, talvez
ainda existam jornais impressos, mas, não por muito tempo.
Daquela época, também lembro dos bailes de debutantes. Era o
momento em que a menina-moça, aos 15 anos, seria “apresentada a sociedade”. Uma
espécie de vitrine para bons pretendentes. A família – de posse – mostrava que
sua menina, agora era moça, e poderia ser cortejada. Também acho que possa
haver bailes de debutantes hoje em dia. Será?
Quando um vizinho comprava um carro, ele certamente daria
voltas pelos quarteirões da vizinhança, bem devagar, com vidros abertos,
desfilando sua nova aquisição.
Passear de mãos dadas na sorveteria; beijos na praça; proclames
na igreja. A vida em sociedade, desde que me lembro, pressupõe o desejo ardente
que temos de mostrar as coisas da qual nos orgulhamos.
O problema é que um objeto, ou uma experiência que passaria
despercebida, quando vivida ou possuída por alguém próximo, parece despertar um
sentimento que varia entre a admiração e, infelizmente, a inveja no outro. Este
último é tido, grosseiramente, como sentimento de angústia, ou raiva, em função
das experiências ou aquisições do outro. E isto pode ser bastante cruel,
sobretudo para quem o sente. Para o invejoso, inclusive, o inverso é
verdadeiro. A dor e o sofrimento do outro, lhe causam satisfação e prazer.
Esta conclusão é do neurocientista japonês Hidehiko
Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, em Tóquio, que desenvolveu
amplo estudo, utilizando ressonância magnética e chegou a conclusão de que ao
sentir inveja, a região do córtex singulado anterior é ativada, e este é o mesmo
local em que a dor física se processa. Portanto, "a inveja é uma emoção
dolorosa", nas palavras de Takahashi.
Outro dia terminei de reler o Livro “O Poder do Hábito”, do Charles
Duhigg, ganhador do Prêmio Pulitzer, realmente um livro pra se refletir
bastante. Dentre inúmeras considerações feitas, a forma como se constrói um
hábito é muito interessante. Descrevendo simploriamente, um hábito seguiria uma
sequência de: um gatilho, uma rotina e uma recompensa. Essa recompensa,
basicamente, pode ser um prazer ou uma dor evitada. Logo, quando formamos um
hábito, o cérebro “pensa” em cada uma das etapas; depois de consolidado, basta
o gatilho, para que automaticamente iniciemos a rotina já programada, na
expectativa da recompensa. O livro demonstra estudos que comprovam que durante
o hábito, o cérebro praticamente não está ativado, ele cumpre a rotina no
piloto automático.
Há muitos anos em uma reunião de gerentes na matriz da
empresa onde eu trabalhava na época, a diretora financeira sentou ao meu lado,
organizou suas coisas. Pegou um maço de cigarros da bolsa, levou um deles à
boca, e acendeu o isqueiro. Não resisti, e disparei: “vais fumar aqui?”. Ela mal sabia que estava fumando, era apenas
o hábito respondendo a um gatilho qualquer.
O bálsamo mais comum do invejoso é a crítica. “Carro caro,
imagina o consumo?”; “Viajem pra Europa, nossa como é frio por lá!”; “Praia? Muito
quente.”; “Neve? Muito frio”; “Comprou uma casa, mas, está endividado.”; e por
aí se vão os sucessivos gatilhos de uma rotina de inveja, crítica e alívio, ou
seja, a recompensa do invejoso.
Hoje, as redes sociais democratizaram a exposição de tudo
que quisermos. O nascimento de um filho; uma desilusão amorosa; a viagem dos
sonhos; a perda de um ente querido; a conquista de um novo amor. Dar notícia de
tudo que fazemos não é mais privilégio de famílias abastadas ou ricas, e nem
precisamos aguardar o telefonema da avó. Todos sabemos tudo de todos.
Mas, qual o limite da exposição. Até quanto devo compartilhar
com meus “amigos” as coisas que faço. Compartilhar só as coisas boas, das quais
me orgulho? Ou incluo coisas ruins? As que fizeram comigo, ou as que eu fiz com
alguém? A vida nas redes sociais, já se falou bastante disto, parece uma
sucessão de contos de fada.
Para o deleite dos que invejam por hábito, sucessivos
gatilhos que disparam o hábito da crítica ao que é bom, e do regozijo pelo que
é ruim.
Escrevi até aqui, basicamente sobre dois processos potencialmente
colidentes. O desejo de compartilhar tudo de bom que nos acontece, em
contraponto ao evitar as críticas dos invejosos.
Este ano de 2020 (até difícil escrever este número), tem
sido muito especial, pois, realmente parece que estou vivendo em um conto de
fadas. Talvez nunca tenha experimentado estes sentimentos de paixão e entrega
por alguém. Esta felicidade experimentada me faz ter um desejo forte em
compartilhar isso com todos. Estou vivendo longe de casa, as redes sociais
acabam me conectando, atenuando um sentimento que potencialmente poderia se
tornar solidão.
Por outro lado, sei que os invejosos de plantão seguem suas
críticas ao fato de eu ter assumido muito rápido uma nova relação; ou de eu
estar expondo demais meus sentimentos; ou que estou sendo muito exagerado; ou, enfim,
toda espécie de críticas, na maioria por hábito, que alguns “amigos” provavelmente
estejam colocando em marcha.
Então, desculpem-me o termo técnico, “que se fodam!” Sim,
estou apaixonado, amando, e vou compartilhar nossos momentos de amor, carinho e
paixão, porque é verdade! Haverá críticas e aplausos. Mas, seguirei meus
exageros com meu amor, e com o meu Amor!
Vó, pode ligar para as tias aí, e avisa que teremos uma
festa em breve!

Termo Técnico muito bem colocado! Apaixonados Sim!
ResponderExcluir