Café da manhã


Fazia mais ou menos dois anos que estávamos casados. E aquele dia foi como muitos outros dias comuns. Eu sei porque lembrei daquele dia hoje, mas isso fica para o final.

Desde criança tenho hábito de acordar cedo. Não foi diferente. Eu gostava de acordar assim, com a luz ainda fraca do sol entrando por entre as frestas da persiana. Ela ainda dormia ao meu lado, a primavera no sul amanhece mais ou menos fria. Ela usava um pijama, talvez não fosse um pijama, uma camiseta, não sei. De toda forma, o tecido era como seda. Até hoje ainda gosto de perceber como os tecidos acariciam a sua pele, mesmo o lençol que lhe cobria parcialmente, ficava assim, como que protegendo e revelando ao mesmo tempo partes do corpo que eu ainda amo. Fiquei assim, alguns instantes velando seu sono tranquilo. O cabelo meio desgrenhado, a pele quente. Roubei-lhe um beijo – de leve – não queria acordá-la.

O dia seria pesado, meu primeiro cliente estava marcado para 08h00. Sabia que teria um trânsito intenso até lá, precisaria sair cedo e contar com a sorte. Antes de sair, voltei o olhar novamente pra cama, seria bom poder voltar. Não podia.

Liguei o interruptor da cafeteira, e comecei a cortar duas fatias de mamão. Fruta que nenhum de nós gosta muito, mas, passamos a comer todos os dias. O rádio da cozinha estava bem baixinho, hábito herdado de ouvir as principais notícias pela manhã. Estava distraído. Ainda não tinha ido pro banho, sabia que eu a acordaria, estava chegando no limite do tempo. Ela chega atrás de mim, me abraça, cola seu rosto nas minhas costas, sobre a camiseta branca. Sinto meu coração encher. Viro pra ela e tento lhe beijar, ela se esquiva. Tem essa coisa de só beijar depois de escovar os dentes, como se isso fizesse alguma diferença pra mim. Tento mais uma vez, ela se esquiva de novo, mas expõe o pescoço. Aperto forte sua cintura, puxo para mim, e dou um grande cheiro no pescoço. Ela é menor do que eu. Tiro ela do chão, ela senta na mesa, me encaixo entre suas pernas, puxo seu cabelo com carinho e a beijo.

Um beijo rápido, lábios, apenas. Devolvo-a ao chão, viro ela de costa pra mim, uma leve palmada. “Vá pro banho, vou terminar o café e já vou atrás de ti”.

Preciso fazer a barba, ritual que me irrita desde a adolescência. Hoje estou com mais pressa, menos paciência, e uma vontade doida de fazer amor com minha mulher que já está embaixo do chuveiro. Decido deixar a barba como está, afinal é quinta-feira, e o cliente não é novidade. Ela também está com pressa, quer sair comigo. Já saiu do chuveiro, e eu não consegui chegar. Não vai ter jeito, vai ficar pra depois.

Começamos a conversar sobre o dia. Ela me conta do estresse do trabalho, dos desafios que enfrentará. Tento amenizar, dizendo que vou ajudar no que eu puder, ela vai se arrumando, dentes, creme hidratante, escova no cabelo sem secar, pelo visto sairá assim, com cabelo molhado.

Adoro.

Maquiagem será no carro. Mas, não o perfume. Me visto e sentamos pra tomar o café, comer nossa fruta. Ela quer sair, eu não saio sem lavar a louça. Ela quer sair, eu não saio sem estender a cama. Ela quer sair, eu junto uma coisa ou outra ainda espalhada. Sei que algumas chatices minhas a incomodam, mas, ela tem suportado bem. Finalmente saímos. Queria ter ficado.

O elevador demora, estamos olhando pra porta que não se abre. Mãos entrelaçadas. Nossas tatuagens ainda do tempo de início de namoro se completam. "O amor que escrevi em ti", é um dos significados. Ela encosta a cabeça no meu ombro, me olha de baixo pra cima. Eu já estou de óculos escuros. Ela afasta, olha pra mim e diz: te amo. A porta do elevador abre sem que eu consiga responder.

Entramos, a barra de aço escovado servirá de apoio – planejo em milésimos de segundo: coloco ela contra o espelho, aperto a cintura, seguro seus cabelos molhados, e lhe beijo, como na primeira vez!  Tenho tempo apenas pra dizer: eu também te amo!

A porta abre, temos um fraco por elevador. Nos damos as mãos, caminhamos em direção ao carro. As crianças não estão conosco hoje. Puxo um pouco mais pra perto e sussurro no seu ouvido: continuamos à noite. Ela me olha sorrindo, um sorriso com olhar, com amor e malícia, responde: não vejo a hora.

Foi um dia comum, um dia especial, um dia que ainda não aconteceu, exceto aqui, no meu coração. Por isso lembrei dele, lembrei de fazê-lo acontecer. Não será fácil construir este dia, mas, é o dia que eu quero que exista na minha vida.

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