Conversas


Falávamos sobre a relatividade do tempo. Aliás, falávamos sobre várias coisas. Nossos temas, nunca foram simples ou triviais. Gostávamos de falar sobre o coração, sobre nossas emoções, assuntos que envolviam tempo e o amor. Sobre conceitos difíceis de definir. Seria o amor um sentimento, uma escolha, uma atitude, uma conduta? O tempo é linear, um conceito, uma equação?

Em outras oportunidades falávamos de trabalho. Quais seriam as melhores decisões, os melhores processos. Como confiar numa ou noutra pessoa. O quanto os valores corporativos da empresa estavam alinhados com os nossos, como poderíamos contribuir para que as coisas fossem melhores, as pessoas mais felizes e, por fim, nossa equipe – que era comum entre nós – fosse mais produtiva.

Também falávamos sobre filhos. Os dela. Sou o pai perfeito, e como todos pais perfeitos, não tenho filhos.

Falávamos sobre os nossos pais (e mães). Ela que perdeu a mãe tão jovem, e isso foi definitivo na sua vida. Eu que ainda tenho a minha, e isso também é definitivo na vida. Ela que ganhou na irmã, a figura da mãe que partira. 

Falávamos – inadvertidamente – das nossas outras relações, dos nossos acertos e erros. Dos outros amores, amores não correspondidos, das nossas rejeições e medos. Essas conversas sempre me doíam, queria que ela tivesse sido desde sempre minha, provavelmente ela também queria que eu tivesse sido sempre seu. Não fomos. Só exorcizaria meus demônios encarando-os, olhos nos olhos! E assim foi.

Falávamos sobre sexo (e fazíamos também). Falávamos de inseguranças, de descobertas, de desejos e fantasias. Falávamos enquanto nossa pele ainda aquecida se recuperava depois de ensaiar mais uma vez qual seria a melhor posição.

Também falávamos sobre Deus, sobre fé e religião. Falávamos sobre como construímos nossos valores, como questionamos e restabelecemos nossas crenças, e de como decidimos rezar juntos, pedir e agradecer. Nossa experiência com Deus.

Falávamos sobre comida, café, a faxina da casa, a pintura do céu combinando com o mar; falávamos sobre carros, sobre viagens, sobre voos, pessoas, maquiagem, aparelhos domésticos; falávamos sobre sobrinhos, tios, avós, família. Falávamos sobre tudo, sobre ontem, hoje, e sobre o amanhã. Falávamos sobre os próximos 43, 53, ou mil anos.

Não houve segredos guardados, nem perguntas sem resposta. Não houve máscara, não houve dúvidas. A alma revelada, o feio e o bonito. Transparentes. Cúmplices.

Acreditamos no amor indefinidamente e sem prazo de validade. Acreditamos no amor para a vida e por toda a vida. Não, não chegamos a uma conclusão sobre o que é, ou não é o amor, porque talvez o amor seja tudo isso.

Acredito que enquanto falarmos, enquanto nos olharmos nos olhos, e falarmos sobre nossas dores e nossos bálsamos, iremos sim construir um amor todo novo, com conceitos próprios, para que talvez, lá no fim, quando formos nós e Deus, possamos olhar para todas as conversas que tivemos ao longo da nossa vida, e possamos dizer um para o outro: continuo aqui, e continuo te amando!

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