Negação e Raiva
A perda amorosa é uma das mais doloridas que se pode experimentar. Cada pessoa trabalha suas perdas de forma diferente. Trata-se de
um luto. A psiquiatra suíça Elizabeth Kluber Ross, em seus estudos, demonstrou
que o processo de luto passa por algumas fases, ou estágios, sendo que cada pessoa pode viver todos ou alguns, e por um tempo indeterminado em cada um deles.
Recentemente saí de uma relação, a partir de uma
decisão minha. Para efeito dessa reflexão, não vêm ao caso os meus motivos, pois
envolvem expectativas, percepções, e outros sentimentos, inclusive um novo
amor. O que pretendo abordar é a forma como está sendo possível, incrivelmente,
perceber cada um dos estágios descritos por Ross.
O primeiro é o da “Negação”. A pessoa que sofre a
perda não acredita que perdeu. Mantém fotos, acredita em fantasias do tipo, “ele
voltará”, “é uma fase”, “são outros problemas”. A pessoa simplesmente nega que
a perda esteja efetivamente acontecendo, ou que tenha acontecido. Mais do que
isso, o entorno em que a pessoa se insere alimenta tais fantasias e esperanças,
negando que a perda tenha efetivamente acontecido.
O segundo estágio é o da “Raiva”. A pessoa sente-se
injustiçada, não entende como pode ter sido deixada, ou abandonada, acusa o
“agressor” de várias maneiras. Neste caso, ela tenta compensar a própria dor,
causando dor no outro. Ela tenta agredir de muitas maneiras, tentando localizar
os pontos de maior dor, ou possível dor, inclusive nas pessoas que são próximas.
É um momento em que a convivência e a racionalidade são quase impossíveis.
O mais triste desta etapa é que a dor daquela pessoa,
é irrelevante para o contexto e dia a dia das demais, e as cenas de agressão,
tornam-se patéticas tentativas de chamar a atenção. Ficam claras as fantasias, as crenças numa falsa realidade, como se visse sempre o monstro e o lado sombrio do outro. Mais, o eventual algoz vira
vítima, e ainda que inócuos, os ataques são, no mínimo, constrangedores,
desproporcionais, e, no mais das vezes, injustos!
Não acompanhei, ou acompanharei, os outros e próximos
estágios - barganha, depressão, e finalmente, aceitação. Por autopreservação, isolei completamente qualquer contato, contudo,
percebo que o cuidado, o carinho e o respeito que haviam, que poderiam ser perenes,
se esvaem, restando a piedade, o lamento, e a torcida pela cura solitária da outra
pessoa.

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