19 dias - Ação, não medo
Meu filho,
Estamos quase lá, chegando ao fim da travessia da tua gestação.
A mamãe segue ativa, segue forte, vivendo intensamente o nono mês. A barriga dela está enorme e, ainda assim, ela não deixou de fazer absolutamente nada. Se fosse eu no lugar dela, provavelmente estaria me arrastando. Mas tua mãe parece feita de aço, embora tu estejas consumindo todo o ferro dela. Agora, uma nova letra principal se impõe: o “M” de Mateo.
Tu já estás aí, te empurrando, marcando presença. São momentos de muita alegria, de expectativa real e concreta.
Mas te confesso que, volta e meia, sou assombrado por medos. Algumas preocupações insistentes. Saúde, grana e tempo rondam algumas das minhas noites.
Desde pequeno, andei às voltas com médicos e hospitais. Às vezes me pergunto se terei saúde para te segurar no colo durante uma noite inteira, caso adoeças. Se teremos estabilidade financeira para te dar o padrão de vida que mereces, com bons médicos, boas escolas e uma boa casa. E se terei tempo suficiente para estar contigo e te ver te tornar um homem independente e autônomo.
São medos reais, que não pedem licença para aparecer.
Mas fantasmas existem? Talvez só se acreditarmos neles.
Ouvi outro dia, em um podcast, que o medo é a face inversa da fé. Em ambos os casos, acreditamos em coisas que ainda não existem. Pelo menos não ainda.
Isso tem me ajudado a treinar a mente e o espírito, tentando transformar medo em fé. Não tem sido fácil. O meu exercício é acreditar que apenas a ação pode curar o medo. Enfrentar, tornar concreto e estar preparado são formas de aliviar aquilo que insiste em voltar.
Não quero que imagines teu pai como um covarde. Não é disso que se trata. Apenas os tolos não têm medo. O desafio é não sucumbir, não se curvar, não se entregar. É fazer o exercício da fé e agir para cobrir os pontos cegos.
O curioso é que, olhando para a vida, os medos às vezes se realizam. Mas a fé também se confirma. E, até aqui, a tua gestação tem sido isso: uma sucessão de boas notícias, exame após exame, ultrassom após ultrassom, confirmando que és um menino forte e saudável.
Esses dramas, essas reflexões e esses sentimentos do papai são para leres muito mais adiante. Tenho a impressão de que, lá na frente, tudo isso fará ainda mais sentido.
Está quase na hora.
Te amo.
Comentários
Postar um comentário