8 dias - Relógio de Parede
Meu filho,
Era o Vô Chico quem me buscava muitas vezes na escola. Eu
achava engraçado aquele fusca laranja sem banco de passageiro na frente. Neste
dia, eles estavam diferentes. A irmã mais velha da Bisa estava lá. Ela me ensinou
a “Dança do pezinho”:
“Ai bota, aqui, ai bota ali o seu pezinho...
O seu pezinho bem juntinho com o meu...
E depooooiiis, não vá dize-eer, que vocêêê já me esquece-eu”.
Meus pés acompanhavam os da tia Matilde que me fazia
rodopiar no ritmo e na letra da música.
“Senta aqui, filho”, me disse a vó.
“E espera”, continuou.
“Espera o que?”
“Só espera.”
De repente: “tóinnn”.
Soou um badalo, marcando uma hora da tarde no relógio de pêndulo
que o Vô Chico exibia orgulhoso, pendurado na parede da cozinha – que servia
mais como sala de estar.
Eu achei aquele negócio meio irrelevante, pouco divertido,
e, passei muito tempo, ouvindo do meu quarto, no apartamento de cima, as doze
badaladas da meia-noite.
Ele sorria com a conquista. Ficava olhando para a parede,
esperando a próxima hora para ouvir aquele “tóinnn” de novo. Foi assim a cada vez que dava corda, por toda
a vida.
Em algum momento, o relógio parou, e o Vô Chico não estava
mais lá para dar corda, ou mandar para o conserto.
Há quem diga que não é bom ter relógios parados em casa. Mesmo
assim, eu o trouxe comigo. Limpei o vidro com cuidado e o parafusei na parede
da nossa sacada, aqui de casa. Agora, ele está ali, meu filho, parado.
Ele não marca mais as horas, mas, com certeza, marca o
tempo.
Te amo!
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