5 dias - O som do silêncio
Meu filho,
Ao longo destes dias eu te falei
sobre uma série de coisas: lembranças, histórias, recomendações. Te falei sobre
fragilidades, medos e fortalezas.
Só que hoje faltam apenas cinco
dias para o teu nascimento. Cinco dias! Tudo é ansiedade, contagem regressiva,
despedida e boas-vindas. Para ser sincero contigo, agora, nem sei mais o que é
importante te dizer. Jamais vou conseguir te dizer tudo.
Estes são os últimos dias sem você conosco, fora da barriga, últimos dias da casa silenciosa quando teus irmãos não estão. Segundo a tua mãe e toda a gente, últimos dias de uma noite inteira de sono.
Mas quem disse que eu consigo ter uma noite inteira de sono?
Talvez eu possa te contar da Mariah. No ano em que a mamãe e eu nos casamos, naquele mesmo ano, numa manhã de domingo, enquanto eu ainda me dividia entre duas casas, duas cidades e um voo semanal, ela me surpreendeu com aquele teste de farmácia que dizia: grávida!
Eu fiquei olhando mais tempo do que precisava, como se ainda estivesse
tentando entender o que estava escrito ali.
Eu ia ser pai, Mateo. Eu quis
ligar para minha mãe, eu quis fazer um post, eu quis contar para todo mundo. Já
a mamãe, com aquela famosa serenidade quase irritante, me pediu calma, espera.
Naquele mesmo final de semana, no almoço, uma ou duas doses a mais, acabei
contando para todo mundo que estava conosco.
Iríamos na semana seguinte
visitar o vovô e a vovó, e depois iríamos passar uns dias na praia com eles.
Mandamos fazer um presente para anunciar a gravidez; eu vinha na estrada
fazendo planos, sugerindo nomes, imaginando a reação dos meus pais. E assim foi.
Naquela mesma noite, a mamãe sangrou. Alguns dias depois, perdemos nosso primeiro bebê. Me dou conta, agora, que a nossa força está em reconhecer as fragilidades, persistir apesar dos desafios e ser resilientes.
Voltamos em silêncio, exceto pela música no rádio do
carro:
“Quando bater a saudade, olhe aqui pra cima / Sabe lá no céu, aquela estrelinha / Que eu muitas vezes mostrei pra você? / Hoje é minha morada, a minha casinha / Mesmo que de longe, tão pequenininha / Ela brilha mais toda vez que te vê”
Olhei para tua mãe. Ela para mim. Não dissemos nada.
Mais tarde tatuei uma estrelinha no meu braço, podes ver aqui, ao lado
do monograma que simboliza o nosso casamento. Só eu sei que era uma menina:
Mariah. Assim como eu soube que tu eras o Mateo. Acho que eu não tinha escrito
sobre isso ainda.
O tempo passou e a mamãe
engravidou mais uma vez. Agora sim, eu já era suficientemente maduro, poderia
processar com calma a informação e tratar com cuidado as expectativas. Não foi
bem assim, claro. Nem tive tempo para isso. Não foi dessa vez. Houve outra.
Mais uma. E outra. Uma última, quando passaram uma, duas, três, quatro semanas.
Marcamos um ultrassom. O médico colocou o equipamento na barriga da mamãe:
silêncio.
Falamos pouco nos dias seguintes. Talvez a vida estivesse me preparando outros papéis. Caberia a mim a experiência da paternidade terceirizada. O tempo passou, concentramos nossa vida no trabalho, nos meninos, na nossa casa. A mamãe tomou uma decisão profissional importante: trocou de empresa, saiu de onde estava há quase quinze anos.
Ironia.
No dia da despedida, estávamos na
sala; ela me olhou e a fisionomia dela mudou. Ela disse que estava atrasada. Eu
já sabia. Não falei nada, não queria falar nada. Naquela semana ela marcou mais
um ultrassom. Eu não fui. Justifiquei-me pelos compromissos na empresa. O pior
som era o silêncio. Eu não queria ouvir o som do silêncio de novo.
A coragem, para a mamãe, não é
uma escolha. Ela é corajosa por todos nós. Mais tarde, uma mensagem. Um áudio:
“Tum, tum, tum, tum, tum.”
Ouvi o áudio três vezes seguidas. Eu estava em uma reunião. Ninguém percebeu quando eu baixei a cabeça.
E foi
assim, meu filho, que entraste nas nossas vidas. Esperamos ainda muitas semanas
para contar para os teus irmãos. E mais algumas para anunciar tua presença,
depois que te vimos inteiro dentro da barriga dela — e, mesmo vendo, eu não
acreditava.
Não vejo a hora de te ter aqui comigo. Entenda agora as cartas da mamãe, da vovó, da titia, dizendo-te que vieste num tempo que não explicamos, de um jeito que não entendemos.
É isso que
eu preciso te dizer hoje, filhote: há estas coisas, estes milagres, que não
precisamos entender, são graça. Nunca esqueças disso: és um milagre, assim como
toda a vida que está neste mundo.
Te amo, meu filho.

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