Há 3 dias - Nosso Encontro
Meu filho,
Comecei este texto algumas vezes.
Na sala de recuperação. No quarto da maternidade, enquanto tu dormias depois de
entendermos, por tentativa e erro, o que faz descansar. Agora escrevo da mesa
de casa. Tua mãe está ao meu lado. Tu repousas no colo dela. Teus avós vieram
nos fazer companhia. Talvez seja este o primeiro cenário verdadeiramente nosso.
Quero te contar sobre o dia do
teu nascimento.
Durante meses imaginei esse
momento. Imaginei a cena, o som, o cheiro do hospital, o instante exato em que
te ouviria pela primeira vez. Hoje percebo que imaginar é um exercício de
controle; lembrar é um exercício de rendição. O momento acontece e, quando
tentamos segurá-lo, ele já virou memória.
Eu estava sentado ao lado da
mamãe. A médica trabalhava com precisão tranquila, e curiosamente narrava a si
mesma através de uma conversa contigo. Um pequeno corte. De dentro dela, como
se o corpo abrisse passagem para o mundo, veio o primeiro sinal. Um choro alto,
limpo, decidido.
Eu ainda não tinha visto teu
rosto.
Mas já te conhecia pelo som.
Quando teu corpo surgiu, ainda
entre dois mundos, senti algo escorrer de mim junto com o líquido que te
envolvia. Não era fraqueza. Era a ilusão de comando. Ali compreendi que ser pai
pode ser perder o controle.
Olhei para trás. Nossa família
assistia tua chegada por um vidro. Havia lágrimas, sorrisos, mãos trêmulas
segurando celulares. Todos testemunhas. Mas, naquele instante, tudo se resumiu
ao tamanho do teu corpo nas mãos da médica.
Houve um segundo que me
atravessou.
Teu choro parou.
Teus braços caíram ao longo do
corpo.
Tua cabeça pendeu pro lado.
O mundo ficou sem som. Meu
coração parou, eu gritei. Mas, não tinha voz, não tinha ar.
Só a médica viu o pânico no meu
olhar.
Só no meu olhar.
Nunca saberei quanto tempo durou.
Talvez dois segundos. Talvez uma eternidade.
Entendi o tamanho da
vulnerabilidade que é amar.
Depois vieram os rituais:
limpeza, medidas, vitamina, colírio, calor. Tudo necessário. Tudo técnico. Eu
observava como quem vigia um milagre.
Até que te colocaram nos meus
braços.
E então houve silêncio outra vez.
Não de medo. De reconhecimento.
Teus olhos se abriram. Pequenos,
ainda aprendendo a luz. Dizem que recém-nascidos não enxergam com nitidez.
Talvez. Mas ali havia algo que não dependia dos olhos.
Estávamos curiosos um com o
outro.
Eu tentava encontrar em ti os
movimentos que sentia na barriga da mamãe, as imagens granuladas do ultrassom,
as suposições que fiz sobre teu rosto. Tu apenas me olhavas, como quem
pergunta: “E agora?”
Tua mãe nos observava com uma
serenidade generosa. Ela sempre foi tua mãe. Carregando, protegendo, alimentando.
Eu, naquele instante, tornava-me
teu pai.
Não apenas por biologia.
Mas pelo reconhecimento.
Tudo foi rápido. Rápido demais
para quem passou meses esperando. A vida tem esse costume de nos preparar
longamente para aquilo que acontecerá em míseros instantes.
Hoje já é lembrança. Uma
lembrança viva e próxima. Mas, uma lembrança.
Rápido demais. Queria poder repetir
indefinidamente.
Enquanto escrevo, te vejo por
sobre o ombro da tua mãe, saciado, tranquilo. Tento guardar este instante como
quem tenta segurar água nas mãos.
Vamos devagar com isso!
Há muito ainda por viver, muito ainda
a te contar, e muito para aprender como ser teu pai.
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